Os fugitivos

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Roberto Drumond - Editor chefe do Jornal Ouvidor.

Os fugitivos – Parece engraçado não fosse terrível. A fuga de dois condenados de uma prisão federal de segurança máxima está expondo não só a fragilidade do sistema, mas também a ineficácia das operações de recaptura.

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O custo da mobilização de centenas de policiais e equipamentos, inclusive drones e helicópteros já ultrapassa o que seria razoavelmente superado se não houvesse tanto alarde com a notícia da fuga.

Se a imprensa nacional não tivesse espetacularizado tanto a fuga dos dois bandidos, eles certamente estariam procurando familiares, amigos ou tranquilamente bebendo cerveja na praia ocasião em que poderiam ser reconhecidos e recapturados.

Não é a primeira vez que esse tipo de noticiário causa na população uma certa indiferença com relação aos esforços da polícia em recapturar os fugitivos. Há até mesmo uma parcela do público que se regozija com a habilidade dos foragidos de despistar policiais e cães farejadores para assegurar a “liberdade”. É como se os bandidos se tornassem heróis, mais poderosos do que o esforço do Estado de mantê-los presos.

Aprendi ao longo de minha carreira como jornalista que tentar a fuga é um “direito” do preso uma vez que, mantê-lo na cadeia é dever do Estado. Ao conseguir se escafeder de todo o aparato colocado a sua perseguição, na verdade os bandidos expõem a fraqueza do sistema que deveria mantê-lo encarcerado.

Quero aqui expressar a minha crítica quanto ao trabalho desenvolvido especialmente pela grande imprensa que supervaloriza essa ocorrência que, na verdade acaba por incendiar entre os presos a ideia de que o Estado não consegue cumprir com seu dever, podendo até mesmo motivá-los a tentar o que lhes é “direito”.

O Brasil tem 832 mil presos, um recorde na história do sistema prisional. Sonhar em escapar é um alento para quem sabe que terá de esperar 30 ou 40 anos para ver a rua, e à primeira oportunidade arrisca, sabendo da dificuldade do Estado em encontrar a agulha no palheiro.

O noticiário da grande imprensa não celebra as recapturas de foragidos. Quando muito se limita a pequenas notas no pé das páginas policiais, valorizando não a ação da polícia, mas o vacilo do fugitivo. E é nesse vacilo que o dois de Mossoró terão de ser encontrados. Mas enquanto houver sensacionalismo na sua perseguição, o aplauso será para o criminoso, não para o Estado. Esse, no fim, fica desmoralizado e com milhões de prejuízo financeiro decorrente do esforço da recaptura.

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