SP suspende captação de água no Jaguari

“Intervenção dos Ministérios Públicos Estadual e Federal deve agilizar medidas de contenção dos desperdícios e encontrar os responsáveis pela escassez de água nas casas e indústrias”, avalia o engenheiro Juarez Vasconcelos

Cidades Em 10/09/2021 20:09:12

 Por Érica Alcântara

No sábado, dia 04/09, o Governo de São Paulo suspendeu a captação de água da represa do Jaguari. Desde então a Sabesp, companhia responsável pela transposição de água entre os reservatórios Jaguari e Atibainha (do Sistema Cantareira) deixou de captar água para abastecer a capital paulista.

“Mas isso não significa que o reservatório está a salvo, porque o volume de água mandado para o Rio de Janeiro ainda é altíssimo. Deixamos de mandar para São Paulo, mas não reduzimos nada do que vai para o Rio de Janeiro”, alerta Juarez Vasconcelos, engenheiro agrônomo e especialista no assunto. 

Juarez ressalta os últimos dados divulgados pela Agência Nacional de Água - ANA, datado de 09/09/2021, que registra o Jaguari recebendo 11m3/s de todos os córregos e rios que o alimenta, mas continua mandando 39m3/s para o RJ, onde se encontra a usina de geração de energia. “É uma questão de matemática, o reservatório não sobrevive a esta equação”, diz.

O DESPEDÍCIO

No RJ, a usina localizada em Santa Cecília poderia funcionar com volume menor de água. Juarez conta que ao invés de receber dos quatro reservatórios paulistas (Jaguari, Paraibuna, Santa Branca e Funil) os 199m3/s que está recebendo, poderia imediatamente reduzir para 140m3/s. “Assim pararia de jogar no ralo 59 mil litros de água por segundo, sacrificando muito menos as nossas reservas”, destaca.

Na segunda-feira, 06/09, a crise hídrica se tornou alvo dos Ministérios Públicos Estadual e Federal, isso, depois da escassez de água chegar na Bacia do Rio Paraíba do Sul, da qual fazem parte: Santa Isabel, Igaratá e Arujá. Por meio de ofícios, questionaram a ANA e o Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (CEIVAP), qual o plano de enfrentamento dos impactos provocados pela escassez hídrica. As duas entidades têm 12 dias para prestar esclarecimentos.

Para Juarez, a intervenção dos Ministérios Públicos é mais do que necessária, “pois a falta de água nos lares e o possível desabastecimento da indústria são o resultado da omissão ou da irresponsabilidade dos entes responsáveis pela gestão das águas. Já passou da hora de parar de culpar São Pedro”, diz.

Ações Urgentes

Existem medidas que devem ser adotadas para minimizar a escassez hídrica, para Juarez, emergencialmente são elas:

1º - Reduzir o desperdício – obrigando a Sabesp a diminuir as perdas com vazamentos e demais problemas na distribuição de água da Grande São Paulo. 30% de perda é muita água;

2º - A médio prazo, construir novos reservatórios, pois o crescimento demográfico da região metropolitana de São Paulo é altíssimo, quanto mais gente, maior o consumo. Juarez lembra que, no contrato de transposição, assinado há cerca de sete anos e válido por 20, consta que a Sabesp deve construir novo reservatório;

3º - Investir em educação ambiental e no uso consciente da água;

4º - Trabalhar na indústria com metas de redução, em Jacareí, por exemplo, já existem empresas que estabeleceram como meta baixar 25% do consumo de água.

5º - O Engenheiro ressalta que o Operador Nacional do Sistema Elétrico – ONS também precisa investir em tecnologia que aprimore a capacidade das turbinas em gerar energia com menos volume de água.

“É urgente a necessidade de uma reunião técnica e política envolvendo a ANA; o ONS; os governos do Estado de São Paulo e o do Rio de Janeiro, o Comitê de Bacias Hidrográficas do Paraíba do Sul – CBH-PS e os municípios pertencentes ao reservatório do Jaguari. Finalidade: garantir o abastecimento público de água para região metropolitana, a sobrevivência do reservatório do Jaguari, a sobrevivência de Igaratá, Santa Isabel e demais municípios”, finaliza Juarez.

SANTA ISABEL CONSEGUE ACORDO HISTÓRICO

Na quarta-feira, 09/09, o município de Santa Isabel, sozinho, conseguiu da Agência Nacional de Águas (ANA) o compromisso de não baixar o nível da Represa do Jaguari a menos de 20%.

A reunião foi online e contou com a participação do Chefe do Executivo Isabelense, o Prefeito Dr. Carlos Chinchilla, o secretário de Governo e de Gabinete, Felipe Nabil, e os técnicos da ANA. 

“A represa hoje está trabalhando com a capacidade de 25,51%, sabemos que as chuvas de ontem não resolverão nossos problemas e, para proteger o reservatório Jaguari, conseguimos que se comprometessem a não reduzir o nível para menos de 20%. Temos acompanhado os índices diariamente para que o nível se mantenha dentro do acordado”, disse o Prefeito.

Durante a reunião, a ANA defendeu que o nível mínimo fosse que 14,5%. “Mas agimos com zelo a fim de defender os interesses da cidade e dos moradores”, destacou Nabil.

Este acordo pode garantir a sobrevivência do Jaguari, protegendo-o apesar das previsões de contínua estiagem. O próprio Operador Nacional do Sistema Elétrico já confirmou que a situação dos reservatórios de hidrelétricas, como o Jaguari, deve se agravar em setembro. 

As projeções apontam que o nível do subsistema Sudeste/Centro-Oeste, responsável por 70% da produção de energia do país, deve cair dos atuais 20,37% para 15,2%. A queda também deve ser observada nas demais regiões: no Sul – de 26,22% para 22,6%; no Nordeste, de 48,15% para 40,1%; e no Norte, de 69,11% para 65,2%.

ÍNDICE DE PERDAS NA REGIÃO

No site oficial da Sabesp, consta que diariamente, 3,5 bilhões de litros de água passam pelas tubulações que distribuem água na Grande São Paulo. 

Sobre os índices de perdas atuais, a Sabesp informa que, desde 2009, realiza nos municípios atendidos o Programa Corporativo de Redução de Perdas, que atua na troca de ramais e hidrômetros e na inspeção das tubulações para identificar vazamentos e fraudes. Esta atuação refletiu-se na queda do índice de perdas totais dentro da área atendida pela Sabesp de 41% em 2004 para 27% em 2020.

“Atualmente, as perdas estão abaixo da média nacional, que é de 39,2%, segundo o SNIS - Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (2019). Do índice total, 17,4 pontos percentuais são os vazamentos na rede. O restante se refere a perdas comerciais, água consumida que não é contabilizada, decorrentes principalmente de fraude (os “gatos”). Em 2020, foram realizadas ações de combate a perdas com valor total de R$1,05 bilhão. Em 2021 está prevista a aplicação de aproximadamente R$820 milhões”.