O tempo e a raposa

por Roberto Drumond

Crônicas Em 10/09/2021 21:58:06

A raposa ao perceber que não será capaz de saltar sobre um obstáculo, para, retorna e pega novo embalo e salta. O que aconteceu na última terça-feira não foi nada diferente. O presidente Bolsonaro percebeu que a sua verve beligerante iria conduzi-lo a uma situação no mínimo, constrangedora, onde só ele e o país perderia.

Em seu recuo feito à moda emedebista, com uma carta redigida pelas mãos do ex presidente Michel Temer, o Presidente praticamente desconhece tudo o que afirmou, falou e prometeu nos últimos meses de bravatas. Na minha leitura percebi, no item 2 do texto de sua Declaração (2. Sei que boa parte dessas divergências decorrem de conflitos de entendimento acerca das decisões adotadas pelo Ministro Alexandre de Moraes no âmbito do inquérito das Fake News); Bolsonaro admite que tudo o que fez, foi feito por razões pessoais.   

Reconhece ainda que “na vida pública as pessoas que exercem o poder, não têm o direito de “esticar a corda”, a ponto de prejudicar a vida dos brasileiros e a sua economia” (item 3). Mas em nenhum momento o Presidente reconhece que esticou a corda até onde podia sentir que sua posição estaria segura. E foi a insegurança que o fez voltar para trás, como a raposa, para quem sabe, mais adiante, ganhar embalo e pular os obstáculos.

Nos últimos meses Bolsonaro conseguiu uma unanimidade contra ele no STF e em outros setores dos três poderes. Mantem-se sustentado apenas pelo Centrão (conjunto de partidos que, em nome da governabilidade, oscilam de posição conforme os interesses imediatos). Essa frágil posição o coloca refém em um jogo que ele devia conhecer em razão de seus 35 anos como membro do legislativo, e que até agora ele parece desconhecer ou se nega a jogar. Indica, por suas ações e verbos, que pretende ter um jogo próprio, só dele.

Quem quer que entre em um açougue, no supermercado ou em um posto de gasolina para reabastecer o veículo será capaz de apontar o responsável pelo alto custo dos produtos, pela inflação que já bate nos 10%. As bravatas podem ter ensandecido alguns setores mais emotivos, e são esses setores os mais decepcionados com o recuo do Presidente, mas constituem, felizmente, uma minoria. O resto do país acredita que cumprir as leis é a melhor forma de seguir para o desenvolvimento social e econômico. 

Certamente o país respira mais aliviado pela passagem desse sete de setembro, mas não podemos nos deixar enganar com as doces palavras com que Bolsonaro encerra a sua Declaração à Nação. Pode ser apenas o fôlego que a raposa precisa para saltar o obstáculo.