Boi na linha

por Érica Alcântara

Crônicas Em 19/11/2021 21:48:18

Geralmente não uso meu perfil pessoal para tecer comentários sobre temas polêmicos na rede social alheia. Primeiro porque se eu não gosto de algo, ao comentar eu estaria impulsionando com o meu engajamento os temas que, na verdade, gostaria que perdessem alcance. Segundo porque não quero que uma determinada opinião me coloque dentro de caixas de pré-conceito que não me definem completamente.

Se for para ser absolutamente polêmica, prefiro que seja pessoalmente! 

Contudo, esta semana postei um comentário no perfil da Deputada Federal Sâmia Bomfim que exibiu de forma “quase imparcial” em seu feed a imagem do touro dourado instalado em frente à Bolsa de Valores de São Paulo. 

Na foto da parlamentar, o touro está pichado por um grupo que se rebelou contra a obra. A descrição da Deputada apenas diz: “Taxar os ricos! Intervenção do @coletivojuntos no Gado de Ouro da Bolsa de Valores! Nem a fome e nem bilionários deveriam existir.” 

Esta “quase imparcialidade” diante da intervenção me provocou de algum modo e escrevi nos comentários: “Fato: tem um touro - escultura. Enquanto objeto é também arte. O que ele representa não me agrada, mas nem todo grafite eu gosto, nem por isso eu vou até lá e faço pichação em cima. Intervenção com cara de depredação nunca representa evolução, na minha opinião, é claro!”

Paralelamente, enquanto a história do boi ia criando grandes proporções na internet e a fachada da Bolsa de Valores caia mais e mais na boca do povo, uma outra foto publicada nas redes, para mim, significou o maior dos protestos, nela há dois personagens principais:  um catador de material reciclado passando em frente a escultura dourada do touro. 

A estátua grande, lustrosa e robusta sobressai a do homem, comparativamente, franzino e despolido que, sozinho, puxava uma carga volumosa de garrafas PET. MEU DEUS. Esta foto me tocou profundamente, como o maior manifesto de desigualdades.

O touro, que no passado era quem puxava a carga, nesta imagem é a luz dourada de uma riqueza impensável para o catador, que circula de chinelos de dedo entre líderes globais do mercado financeiro.

Ontem, 19/11, um dos seguidores da Deputada, cuja identidade é oculta, retrucou meu comentário da seguinte forma: “Essa ‘obra’ não tem nenhuma identificação com o nosso país, é uma réplica que só representa a síndrome de vira lata da ‘elite’ brasileira, sempre enaltecendo os norte-americanos. E para piorar a situação, no momento de crise que o país atravessa, a representação do touro no mercado financeiro significa uma subida na economia, que não é o caso do nosso país, óbvio, o povo voltou a passar a fome, brigar por comida, essa obra é um escárnio com a população, por isso essa revolta toda”.

Confesso que amei este comentário e o respondi da seguinte forma: “@agentee06 uma coisa interessante na obra de arte é que ela tem o poder de mexer com as emoções, nos chama para a reflexão e nos move para espelhar nossos valores. Noto que você foi tocado pela obra e, ainda que tenha sentido essa indignação, o objetivo final da arte foi alcançado. Que bom!”

Minha sugestão caro leitor é que você, sempre que se sentir tocado por uma obra de arte, reflita o que provocou essa emoção, talvez seja mais fácil de entender que o problema não é a obra em si, mas a trama das imperfeições humanas que, juntos, compomos enquanto nos autodenominamos animais racionais.