A relativização da corrupção

por LUIS CARLOS CORRÊA LEITE

Advogado e colunista do Jornal Ouvidor, Dr. Luís Carlos Correa Leite.

Como se constata no debate político atual – e em todos os níveis de governo – a corrupção é o tema predominante. Há tantas denúncias que o mais relevante parece não ser quem a pratica, mas com qual intensidade.

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E a população, tanto as pessoas comuns do povo como as ditas elites, também parecem ter aceitado tal comportamento, num processo de relativização de conceitos sobre o tema. Mas a nação não pode continuar aceitando esse procedimento como normal.

A corrupção é um câncer que corrói as estruturas do estado, disseminando-se por todo o tecido social. E não é só no plano político. Ainda nessa semana noticiou-se um esquema de corrupção nos órgãos de trânsito, outro sobre a máfia do ISS na cidade de São Paulo, fraudes no setor da previdência, com pagamento de benefícios que deram milhões de prejuízo aos cofres públicos.

A situação está se tornando tão grave que até mesmo nas pequenas coisas, como o trâmite de documentos junto a órgãos públicos, é necessária a atuação de “especialistas”, para os quais tudo flui de maneira mágica. Mesmo que isso ocorra em razão de relacionamentos pessoais, também é uma forma de corrupção. E tudo isso é reflexo da aceitação, já há muito tempo, do famoso lema “rouba, mas faz” ou “rouba, mas ajuda os pobres”.

Não podemos esquecer que parte dessa culpa é também do próprio cidadão, pois muitos desses atos de desvio de dinheiro são perpetrados para custeio de campanhas políticas, cada vez mais onerosas. Aliás, no quadro político, a corrupção começa na própria estrutura da coisa pública, com nomeação de pessoas para atuação em defesa dos interesses eleitorais de seus patrocinadores, quando não para auxiliar no saque da coisa pública.

É preciso muito cuidado com esse estado de coisas. Na Itália, que é um país desenvolvido, há notícia de que na região sul, onde é muito forte a atuação de organizações criminosas, o crime organizado já domina importantes setores da administração pública, como coleta de lixo, serviços de saúde e obras. Ou seja, verificaram que assaltar os cofres públicos tornou-se uma forma de criminalidade muito mais lucrativa e menos perigosa do que assaltar bancos.

Porém, é muito justo também reconhecer que, apesar desse estado de coisas, ainda há setores do Estado dedicados à defesa da moralidade pública. São policiais, promotores de justiça, juízes, que lutam contra esse tipo de criminalidade. Constantemente vemos grandes operações visando o desmonte dessas organizações criminosas, com apreensões de valores, bloqueio de bens e prisões. Lamentavelmente muitas dessas ações são abortadas por decisões superiores, difíceis de compreender.

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