A natureza é inocente

por Roberto Drumond

turismo
Roberto Drumond - Editor chefe do Jornal Ouvidor.

Um amigo, com veterana sabedoria, me diz que o que está acontecendo no litoral é a natureza se vingando do que o homem fez com ela. – Está devolvendo na mesma moeda, diz ele. Outro me chama e diz que, tinha 12 anos quando uma tromba d`água caiu sobre Santa Isabel e inundou a cidade. – Se formos ver as imagens no Centro de Memória Chico Fotógrafo, estão lá! Foi o começo do fim da fábrica de Juta, que perdeu todo o estoque de produtos prontos e de matéria prima, além de equipamentos sob quase dois metros de água e lama! É fácil saber a idade desse amigo. Ele conclui dizendo que “os cientistas dizem que isso acontece, aproximadamente a cada 50 anos!”

Tragédia no Litoral

Vou a uma rápida pesquisa na internet e veja que existe razão para tanto: em 1967 uma tromba d`água caiu sobre Caraguatatuba destruindo tudo. Foram mais de 400 mortos vítimas de uma noite quando a natureza despejou sobre a Serra do Mar, 538 mm de água.

Deixando a cidade isolada, sem estradas, sem energia elétrica, sem água potável e sem socorro. Naquele tempo em que as comunicações eram feitas exclusivamente por telefone, o Governo do Estado só tomou conhecimento da tragédia, 15 horas depois quando um rádio amador conseguiu, utilizando-se da energia de uma bateria, comunicar-se com outros rádios amadores de fora da região afetada.

Não creio que a natureza seja vingativa! E acredito mesmo que fenômenos como esse sempre existiram só que sem a presença humana para lamentar e registrar as ocorrências. Essa é a única diferença existente entre as tragédias atuais e do passado recente, com os tempos imemoriais, mas as montanhas desabadas, as serras desmoronadas estão aí testemunhando fenômenos naturais que hoje sonhamos em impedir.

Não é a presença humana que provoca os acidentes naturais, ela apenas se torna vítima de sua própria irresponsabilidade ao correr o risco ocupando áreas que deveriam ser respeitadas. No meio dessa tragédia tomamos conhecimento de que existem no Brasil cerca de 40 mil áreas de risco ocupadas por uma população de 10 milhões de pessoas. Isso revela que teremos ainda de chorar muitas mortes, como choramos em Santa Catarina a menos de dez anos, na Bahia e no Norte de Minas há dois anos, no Nordeste a não sei quanto tempo e em outros municípios pelos próximos anos, como choramos a 50 anos em Santa Isabel.

Cabe às autoridades que são regiamente remuneradas para isso, conter a onda de ocupações irregulares que povoam encostas em todo o país. Cabe a elas a responsabilidade de zelar pela população. O que aconteceu nas últimas semanas em Mauá, em Osasco e no Litoral Norte é de resultado da pura omissão dos governantes.

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