ERICA ALCANTARA
Érica Alcântara é Escritora, jornalista e editora do Jornal Ouvidor

Essa semana o presidente da Caixa Econômica Federal foi acusado de assédio sexual e a denúncia, se verdadeira, certamente se tornou pública somente após anos de impunidade.
Na semana passada, o debate era sobre o direito de abortar o filho de um estupro. O que foi brutalmente negado para uma criança de 11 anos.

E ainda tem o caso da atriz Klara Castanho julgada e hostilizada por ter exercido o direito de entregar a guarda de uma criança, resultado de um estupro.

O que todos estes casos têm em comum? O corpo da mulher, sua intimidade e sua individualidade que são sucessivamente violados. Numa cultura que parece perpetuar o abuso.

E os números não mentem, no Brasil de 2021 a cada 10 minutos uma mulher foi vítima de estupro. 10 minutos, entendeu? Isso significa que, possivelmente, no tempo que você leva para ler essa coluna, pelo menos uma mulher foi agredida.

Contabilizamos no ano passado 56 mil vítimas registradas de estupro. E a matemática desse crime bárbaro nunca é fidedigna a realidade, pois a maior parte das vítimas, consumida por culpa, medo e/ou vergonha, deixa de registrar o crime.

Esconder os abusos sofridos, geralmente, resultam em feridas da alma que nunca fecham.
“Mas você viu a roupa dela?”/ “Saiu com ele, é claro que estava querendo.” / “O que você fez para provocar ele?” / “Você aguenta mais um pouquinho?” / “Ela riu, se riu é porque queria”…

Diuturnamente as vítimas são julgadas, pela sociedade alheia à suas dores e, muitas vezes, pela própria rede de apoio que, não acreditando na agressão sofrida, perpetuam a violência.

Mais reflexões de Érica Alcântara

Para aqueles que não sabem, a misoginia é um desprezo pelo feminino que infecta os homens, mas também uma parte das mulheres que, imbuídas da necessidade de proteger o agressor, como quem protege uma criança, perversamente altera o discurso de busca pela justiça e expõe as vítimas às situações impensáveis.

E a mulher que viola a outra, geralmente, consegue acessar níveis profundos da feminilidade e faz sangrar emoções que fundam a personalidade, fragmentam partes d’alma como um torturador especialista em identificar aonde a dor é mais intensa.

Sim, meu texto é para todos, mas a mensagem é principalmente para o feminino: eduquem seus filhos para serem homens de bem. Eduquem suas meninas para serem livres e conscientes de seus direitos, o corpo da mulher NÃO é patrimônio público.
A sociedade que pretendo fomentar é composta por pessoas que não violam direitos e que o julgamento, no rigor da Lei, é direcionado apenas aos infratores.

Que a nudez de nossas escolhas nunca seja usada como arma contra nossa individualidade.

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