Vítimas do medo

por Roberto Drumond

Crônicas Em 06/10/2017 23:09:45

Um jovem isabelense decidiu ir a uma festa noturna na zona rural de Igaratá. Nada demais exceto pelo fato de, ao sair do evento, desconhecendo a região onde se encontrava, passou a transitar com sua moto em busca de quem o orientasse.

Um senhor, morador da região, vendo as idas e vindas da moto, pegou o seu carro, chamou um amigo e, juntos passaram a seguir a moto até que pudessem abordar o invasor. E, temendo a ocorrência de uma resistência,  o fizeram de armas nas mãos.

Acreditando estar sendo assaltado, o jovem, ao deslize de quem o abordava, abandonou a moto e, em disparada escapou no meio de uma mata fechada. Sem ver nada à sua frente, pisando onde seus pés batiam, trombando em árvores, arbustos espinhentos, tropeçando e caindo, abandonou a mochila que o dificultava a fuga e, na escuridão e no meio da lama do fim de semana chuvoso correu até que, ferido, sujo e encharcado decidiu se escondeu em um local que lhe pareceu seguro. Ali, manteve-se em silencio, arfando, coração em disparada, tenso não ouviu mais os seus perseguidores e, daquele jeito mesmo, acabou dormindo.

Na manhã de domingo acordou sendo devorado por formigas. Sem saber havia adormecido sobre um imenso formigueiro. O que lhe parecia ter terminado com a luz do sol revelava, para o seu desespero o estado em que estava: arranhado, lanhado, com feridas nos braços, joelhos, pernas e, ainda por cima, o fato de ter perdido todos os seus documentos, inclusive o da moto que estavam na mochila, abandonada no meio da mata por onde se embrenhara na noite escura e onde se sentia incapaz de localizar.

Dolorido, mas ainda com determinação, passou a caminhar em direção ao barulho que lhe parecia ser o da Rodovia D. Pedro I. No meio do caminho, uma surpresa, uma casa com aparência amistosa. Bateu e pediu socorro. Assustados,  os moradores ouviram a sua história e, como haviam tido a notícia da perseguição a um assaltante na noite anterior, compreenderam o drama e o enredo de uma história complicada que começava a esclarecer.

E a moto? Temendo que o veículo fosse roubado, os moradores a levaram para a rodovia D. Pedro I onde foi abandonada com chave e tudo na esperança de que, ao encontrá-la, a polícia identificasse o verdadeiro dono sem comprometer nenhum dos moradores que, no meio da noite perseguiram o assaltante.

Por sorte, a moto estava lá, esperando o dono, mas a mochila, embora tenham buscado em meio ao matagal, ninguém a viu. Abrigado na hospitaleira casa de quem o socorreu, o jovem descansou e foi  levado para a UPA de Santa Isabel, onde foi medicado.

Essa história é verdadeira e mostra que o clima de medo e violência está fazendo de todos nós, vítimas de nós mesmos. Lembro-me da história do bom samaritano. Hoje, certamente, Cristo poderia ser assaltado!