Violência Doméstica: A importância de não se calar

Nesta semana o Jornal Ouvidor debateu a Violência Contra a Mulher, na semana em que se comemora 11 anos de Lei Maria da Penha

Segurança Pública Em 11/08/2017 22:51:21

De acordo com o Instituo Maria da Penha, no Brasil a cada dois segundos uma mulher é vítima de violência física ou verbal, entre muitas histórias tristes está a da isabelense Luzinete Lima da Silva, 47, que após sofrer por mais de 20 anos na mão do ex-marido não tem vergonha de contar sua experiência a fim de motivar outras mulheres a darem um basta nas agressões antes que seja tarde.

Na semana em que se celebrou 11 anos da Lei Maria da Penha, o Jornal Ouvidor promoveu um debate sobre o assunto que contou com a presença da mestre em sociologia Magda Isabel, da presidente da Associação Afro de Santa Isabel, Fabiana Souza e da microempresária Luzinete. A discussão sobre o tema focou desde os dados nacionais até os índices de violências locais.

Dados da ONG Compromisso e Atitude indicam que 52% das violências contra mulheres são físicas e 32% psicológicas, outros 16% desta triste estática se dividem entre agressões moral, sexual e até cárcere privado. Em Santa Isabel, de acordo com dados da Polícia Civil, em 2017, já foram instaurados 83 boletins de ocorrência relacionados a violência contra mulher: “É mais de 26% de todos os 313 inquéritos policiais que instauramos”, disse o delegado Titular de Polícia de Santa Isabel, Dr. Carlos Alberto de Oliveira.   

Para as especialistas Magda e Fabiana, a sociedade precisa posicionar-se em favor da defesa da mulher que é agredida pelo marido em casa, e principalmente daquelas que diariamente são aliciadas e violentadas nas ruas e nos transportes públicos: “A sociedade precisa sair do individualismo e buscar mais a coletividade, sentir a dor do outro. Precisamos ter um compromisso com o coletivo em busca da justiça para todos”, diz Magda. 

Dos 23 anos que foi casada Luzinete diz que sofreu pelo menos 20 com a violência do ex-marido. Foram 13 boletins de ocorrência registrados contra o agressor, que inclusive é pai dos seus quatro filhos: “As surras que levei não deixaram sequelas só em mim, mas principalmente nos meus filhos e isso é que mais me dói. Estou perdendo uma filha para as ruas porque ela ainda não se recuperou deste mal que o pai nos causou”, disse. 

Luzinete casou-se aos 14 anos e foi após a perda da sogra que o ex-marido passou a beber e agredi-la. Foram incessantes registros junto a Delegacia de Polícia de Santa Isabel: “Nas primeiras vezes eu até tentei voltar para a casa dos meus pais, mas no início eles não me aceitaram então eu tive que voltar para a minha casa. Comecei a procurar socorro nas delegacias depois que vi que ou eu tomava uma posição e dava um basta ou eu iria morrer”, diz. 

Para Fabiana Souza as mulheres vítimas de agressão são na maioria das vezes as responsáveis em cuidar apenas da casa e dos filhos: “Alguns maridos proíbem as suas mulheres de trabalhar porque sabe que ai elas podem conseguir sua independência, ter a quem pedir socorro. Eles querem provar que a casa só sobrevive por conta do trabalho dele e que a mulher precisa ser dependente”, ressalta. 

A separação definitiva de Luzinete e o ex-marido, veio quando um dos filhos sofreu ameaça. “Cheguei em casa e estava tudo revirado, roupas rasgadas e moveis quebrados. Quando pedi satisfação ele veio para me agredir e um dos meus filhos entrou no meio para me defender, ele pegou meu menino pelo pescoço foi neste minuto que virei uma leoa. Meus filhos são o que tenho de mais precioso e não aceito que ninguém faça mal para eles”, diz. 

Hoje Luzinete vive feliz em um outro relacionamento com um homem que segundo ela, a trata como princesa. O ex-marido também mora em Santa Isabel, ela já o viu ser absolvido quatro vezes dos registros que ela fez contra ele: “A vergonha para a mulher que apanha do marido, começa no registro da agressão, várias vezes o escrivão na delegacia me questionou se eu tinha certeza que realmente fui agredida. Até mesmo a juíza que julgou o meu caso e inocentou o meu agressor disse que faltavam provas, e mais, disse que eu já estava em um outro relacionamento então não havia mais crime. Enfim, somos violentadas em casa e psicologicamente por aqueles que deveriam nos socorrer”, lamenta. 

Violência contra mulher em Santa Isabel 

O Delegado Dr. Carlos Alberto explica que embora a cidade não tenha uma delegacia específica de atendimento à mulher vítima de agressão, todos os casos atendidos em sua delegacia recebem a devida atenção para que o agressor seja punido conforme o rigor da lei: “Todas as mulheres podem ter a certeza que o seu caso não acaba no nosso balcão de atendimento, registrada a ocorrência nossa equipe de investigadores se desdobra para ouvir a vítima a fim de ajudá-la o mais rápido possível a se livrar de seu agressor. O que está em nosso alcance fazemos e também contamos com a rápida ação do Fórum toda vez que solicitada a Justiça a medida protetiva da vítima”, salienta. 

Dr. Carlos explica que um dos objetivos da delegacia é criar a Sala Rosa, local onde as mulheres receberão além do atendimento com o escrivão, contarão com o apoio de um psicólogo e assistente social: “A prefeita Fábia Porto já se colocou à disposição para nos ajudar no desenvolvimento deste projeto”, diz.

Serviço

A Associação Afro de Santa Isabel oferece gratuitamente apoio as mulheres vítimas de agressão e em situação de vulnerabilidade, onde elas podem fazer cursos profissionalizantes, participar de aulas e outras atividades. A sede da Associação fica na Rua Prudente de Morais, Nº 23, centro de Santa Isabel. Mais informações no 11 4680-1116.

Para denunciar crimes contra a mulher disque 180.