Tragédia à brasileira

por Roberto Drumond

Crônicas Em 08/02/2019 22:24:03

Temos a mania de a tudo que nos comove chamar de tragédia. Nas últimas semanas tivemos notícias de várias tragédias e, em nossas lembranças habitam outras inúmeras tragédias. Só para refrescar nossa memória: em 2014, na cidade de Alagoa Nova, na Paraíba, o rompimento da barragem de Camará matou cinco pessoas e deixou três mil desabrigadas. Destruiu a cidade e afetou a vida em outros quatro municípios. 

Quatro anos depois a tragédia em Santa Catarina com desabamentos de morros. Oficialmente, 106 pessoas se foram e outras 29 desaparecidas cujos corpos jamais foram encontrados. Dessa vez a tragédia foi provocada pelas chuvas e pelos desabamentos em 14 cidades afetando famílias de baixa renda que residiam nas encostas proibidas.

 Tragédia similar em Petrópolis e Teresópolis em 2013 onde também se chorou mortos nunca encontrados e, anos depois a maior das tragédias, a descoberta que os recursos públicos destinados ao alívio social foram desviados para contas pessoais. 

Houve tragédias semelhantes no Brasil inteiro quase sempre provocadas pelas chuvas e enchentes que lavando as encostas destruíram e mataram centenas de brasileiros. A mais recente das que chamamos de tragédia é a de Brumadinho cujo número de mortos jamais será comprovado. Antes dela a de Mariana e as que virão a seguir, como os seis mortos do Rio de Janeiro essa semana. Chamamos também de tragédia a morte de 13 jovens atletas da escola de base do Flamengo, asfixiados por um incêndio em alojamento um local onde, oficialmente, existia apenas um estacionamento.

Basta comover muitas pessoas para que chamemos a ocorrência de tragédia. Contudo a verdadeira tragédia nós jamais apontamos. A tragédia de nossa incompetência para gerir nossas cidades, nossos estados, nosso país. O não fiscalizar, a eterna mania de dar um jeito para resolver as coisas de um modo mais simples, sem avaliar as consequências futuras.

Essa semana uma menina de oito anos de idade chamou a atenção para uma tragédia em Arujá. Com letra e texto compatível com a sua idade e grau de instrução levou ao Ministério Público local a denúncia do estado lamentável em que se encontra a escola Zilda Arns. Com fotos tiradas com o celular e a visão de seus direitos, Inaiá apresentou uma radiografia completa da tragédia que é um governo sem compromisso com a educação. Certamente professores e diretores estão envergonhados de não terem tido a iniciativa de revelar ao público o que de fato acontece nas escolas. E uma escola cuja patrona teve uma vida dedicada à saúde e à educação e que morreu em uma verdadeira tragédia natural.

A nossa tragédia devemos chamar de incompetência!