Tiro pela culatra

por Roberto Drumond

Crônicas Em 08/03/2019 23:33:12

A linguagem militar diz exatamente o que aconteceu com o vídeo publicado no tuíte do presidente Jair Bolsonaro. Ao veicular cenas obscenas de um evento isolado ocorrido possivelmente em São Paulo, o Presidente deu projeção a um fato que certamente foi único e que, nas atuais condições, poderia ter sido impedido por uma ação policial com base na definição de um atentado ao pudor. Claro que tal medida, se ali tivesse ocorrido, causaria uma repercussão localizada, mas seria de curto alcance.

Do jeito que o presidente Bolsonaro fez as imagens correram o mundo despertando ira, revoltas e principalmente, dando uma imagem do que não é o carnaval brasileiro. Fatos mostrados pelo Presidente certamente ocorrem em todos os lugares do planeta e, possivelmente ocorrem durante e fora do carnaval quando os excessos se transformam, às vezes, em absurdos. 

Creio que, ao exibir as cenas, Bolsonaro pretendia condenar um fato isolado, mas do modo como fez passou a idéia de que o carnaval do Brasil, se não é o desfile colorido das passarelas do sambas e sambódromos, é o que foi mostrado sobre uma marquise em um local movimentado.

Em todos os lugares do mundo existem ambientes públicos onde cenas semelhantes ocorrem com maior ou menor vulgaridade, outras se tornam até mesmo atrações turísticas de cidades como Amsterdã, Tóquio ou Hamburg, onde vitrines exibem prostitutas ou oportunidades de sexo explicito e diferenciado. Mostrá-los é uma opção estratégica que pode ser bem aproveitada, infelizmente, no caso brasileiro, sob o patrocínio do Presidente, foi péssima.

O carnaval na maior parte do país é uma festa popular, aproveitada pelas pessoas para darem vazão aos seus sonhos e até mesmo algumas compensarem suas frustrações. Nos blocos, nas praças, idosos e crianças brincam ao som de marchinhas e músicas de todos os tipos, fantasiadas ou simplesmente cobertas de cores extravagantes, mas dispostas a manter o respeito às outras pessoas. Não foi isso que o Presidente mostrou.

É de se duvidar que Bolsonaro tenha sequer conversado com alguém antes de postar o tuíte. Se conversou, é lamentável ter decidido contrariar o bom senso de quem quer que seja, já que não atendeu ao próprio sentido de ridículo. Que essa oportunidade não aproveitada de ficar calado lhe sirva de lição e aprenda que o Brasil não pode ser a projeção de suas vontades.

O carnaval é uma festa que projeta o país nos melhores lugares do mundo e desperta a cobiça de turistas muito pela liberdade que proporciona a quem dele quer participar. Mas não é um país que sobe em uma marquise para atos obscenos, nem um convento de virgens vestais.