Teoria da Guerra

por Roberto Drumond

Crônicas Em 27/03/2020 22:47:44

Nessa semana de isolamento social o que mais repercutiu nas redes sociais e nas emissoras de rádio e TV foi o pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro. Sua fala impressionou e dividiu o país inteiro e, confesso, fiquei espantado com o teor da mensagem. Refletindo posteriormente constatei o que passo a contar: há uma contradição enorme entre o que ele falou e o que ele anda fazendo como Presidente. Como responsável pelo país ele liberou todos os recursos que lhes foi solicitado e, para isso, não teve dúvidas de decretar inclusive “Estado de Calamidade Pública”. Qual o sentido então da sua manifestação que aparentemente dividia o próprio governo?

Como qualquer pessoa medianamente inteligente, Bolsonaro sabe que, numa guerra se você admite que o inimigo é mais forte do que você, entra em combate derrotado. A confiança na própria capacidade e o moral alto é o maior combustível de uma luta. Vou citar o filósofo persa Avicena (980/1037), considerado o pai da medicina moderna. Ele teria dito: “A imaginação é a metade da doença; a tranquilidade é a metade do remédio e a paciência é o primeiro passo para a cura”. 

O ataque do Presidente seguramente teve o objetivo de abater a metade da doença. É correto que as medidas dos governadores de São Paulo e do Rio são fundamentais para o combate à disseminação do vírus, mas exacerbaram a imaginação embora seja a forma correta de frear o avanço da covid-19, mas é possível que a forma de aplicá-las e a repercussão que tiveram em todo o país, possam ter ampliado a metade do remédio. A fala de Bolsonaro foi uma tentativa de devolver a tranquilidade, mas errou na dose. Pelo menos de imediato, tirou a tranquilidade necessária para a obtenção dos efeitos desejados.

Não há nenhuma dúvida: o Presidente Bolsonaro é tosco, é rude, mas é o seu jeito de ser e não haverá diplomacia nenhum capaz de fazer com que ele reflita antes de se pronunciar. Aliás, nem a medicina será capaz de mudar o seu comportamento frequentemente tão incauto. Só que temos um fator que não podemos nos esquecer, ele é o Presidente do Brasil, democraticamente eleito e compete a todos nós, brasileiros, respeitar a instituição que desejamos tanto.

Já sabemos que a Covid-19 será debelada e o Coronavírus se tornará inócuo. Provavelmente ele retornará, um dia sob um novo véu, porque o vírus é um ser mutante. Nosso presidente também mudará um dia. Outro será democraticamente eleito talvez de perfil bem diferente, mais diplomata, menos rompante.

O importante nessa temporada é cumprir as recomendações das autoridades de saúde para sobreviver e poder ver quais serão as consequências econômicas e sociais dessa pandemia que, até prova em contrário, ninguém deliberadamente criou. 

Precisamos do restante do remédio sugerido por Avicena: paciência para reconstruir nossas vidas e o país!