Revolta no funcionalismo pode causar paralisação de setores

Servidores municipais de Igaratá ameaçam entrar em greve depois da aprovação de reajuste maior somente para sete funcionários

Política Em 09/03/2013 11:48:39

Enquanto todos os demais servidores públicos de Igaratá receberam 5,84% de reajuste salarial, na última sessão de câmara, realizada na quarta-feira, 06, atendendo ao pedido do prefeito Elzo de Souza, os vereadores da situação aprovaram o aumento salarial de 79,57% para os maquinistas rodoviários. Os cerca de 60 funcionários públicos que assistiam a sessão ficaram revoltados com o favoritismo de sete pessoas em detrimento de todos os demais. “Quando votaram o nosso reajuste de 5,84% disseram que não tinha dinheiro, agora para os amigos do Prefeito tem”, diziam em voz alta, enquanto vaiavam e ameaçavam fazer greve.

Graças ao voto dos vereadores Gilmar do Mercado, Leandro Reis, Coquinho, Deodato, Nilton César e Moacir Prianti os sete operadores de máquinas rodoviárias saltaram da referência 12 para a 16, aumentando o salário de R$ 1.042,20 para R$ 1.871,00.

O Projeto de Lei do Prefeito chegou à câmara de Igaratá há cerca de duas semanas, desde então os vereadores Benjamim de Lima, Jair Rufino e Benedito Carlos, os únicos a votar contra a proposta, vinham denunciando “a falta de bom senso do executivo, que inclusive dividiu a classe considerando que os que atuam com máquinas rodoviárias são mais dignos de aumento do que os que trabalham com as máquinas agrícolas”, reclamavam.

Alguns dos beneficiados estavam presentes na sessão e, em silêncio, ouviram o vereador Benjamin dizer na tribuna, que o problema não é aumentar o salário deles, é não aumentar de forma justa o dos demais: “Todo servidor deve ser contemplado independente de sua referência. A referência 12 tem mais ou menos 40 pessoas, cabe a nós vereadores lutar para que todos os funcionários sejam reconhecidos. Não dá para votar o projeto com base na promessa de que o Prefeito vai aumentar o salário de todos, eu não tenho nenhum documento em mãos e nenhum vereador tem que garanta aumento equiparado para todos, se não fosse só promessa eu seria a favor”, disse Benjamin.

De fato, o prefeito Elzo sequer respondeu a indicação feita pelos próprios vereadores da situação que pediram um bonus de R$50 para os demais servidores.

O vereador Benedito Carlos foi um dos mais aplaudidos durante a sessão, em tribuna especificou que os operadores de máquina rodoviária receberão R$828,80 a mais, enquanto o salário bruto mensal dos braçais, vigias, merendeiras e serviços gerais é R$ 684,00. 

“Para fazer justiça cabe aos vereadores lutar por todas as referências de 1 à 19, não podemos enxergar pessoas isoladamente,é preciso ter um equilíbrio no quadro de funcionários. Nós sabemos que o Prefeito chamou motoristas hoje no gabinete dele, fez promessas e pediu até que alguns não viessem aqui na sessão. A Câmara está aberta para a população independente se é servidor público ou não”, destacou o Vereador. 

Os servidores presentes na Casa confirmaram o que o vereador contou sobre a atitude do Prefeito, e disseram que alguns funcionários chegaram a se sentir ameaçados ou coagidos a não participar da sessão de Câmara.

Como paliativo, na tentativa de evitar a revolta que assolou o público presente, logo no início da sessão o vereador Moacir fez uma indicação para o Prefeito extinguir as referências de 1 a 6, enquadrando todos esses funcionários na referência 7, mas esta proposta, como os R$50 reais, deverá esperar a resposta de Elzo.

Reunião exclui oposição

Na tarde de quarta-feira, antes da sessão de Câmara, os vereadores aliados do Prefeito, em uma reunião realizada às escondidas, sem comunicação aos vereadores da oposição, ocorreu no gabinete do Prefeito. Neste encontro, segundo informações, Leandro Reis, Gilmar do Mercado, Moacir Prianti, Coquinho e Nilton César buscaram orientação sobre o que fazer a respeito do projeto de aumento do salário, e o prefeito Elzo acompanhado de seu vice, Ary Fernandes, solicitou que eles votassem a favor, ordem que os edis seguiram a risca. 

Na Câmara, Nilton César tentou justificar a proposta do Prefeito, segundo ele, Elzo garante que esse aumento para os maquinistas é uma questão emergencial, pois três maquinistas já pediram demissão e foram para outras empresas e prefeituras que pagam salários melhores. “Eu não posso mudar de todos agora”, segundo Nilton, essas foram as palavras do Prefeito, que prometeu até o fim do seu mandato aumentar o salário de todos os funcionários. 

O público não reagiu bem à explicação dada pelo Vereador em nome do Prefeito, as reclamações em voz alta tomaram conta do plenário. Alguns perguntavam se é preciso pedir demissão para ter aumento, outros reclamavam da promessa de reajuste somente no fim do mandado que acaba de começar, “é tudo mentira, o município já perdeu excelentes funcionários como uma dentista, um farmacêutico e uma fonoaudióloga, e até hoje a Saúde não tem mais esta última especialidade. Apesar desses funcionários, queridos pela população, terem deixado o município para trabalhar em outros lugares onde foram mais valorizados, o salário deles não foi aumentado e sequer a referência. O pedido de demissão dos maquinistas não pode ser uma desculpa”, diziam os servidores.

Outro motivo de desgosto para alguns funcionários é que na referência 16, estão enquadrados muitos servidores com curso superior como psicólogos, fisioterapeutas, farmacêuticos, além de cargos como assistente social e coordenador de recursos humanos, que não mudaram de referência e não receberam um reajuste adequado. “A gente estuda um tempão, se esforça para fazer uma faculdade e se qualificar, queremos ser valorizados. Não estou desmerecendo o trabalho de ninguém e muito menos nos achando superiores aqueles que não puderam fazer uma faculdade, pois todo mundo tem seu valor, mas queremos justiça”, reclamam alguns, seguido de funcionários da referência 12 que destacam "que os maquinistas vão ganhar mais que nós, isso não nos incentiva a batalhar para ter mais qualificação”, disse um servidor formado da área da Saúde.

O vereador Moacir falou na tribuna que “não adianta fazer cara feia, os pequenos também são importantes. Não adianta a pessoa vir aqui e falar que tem um diploma, tudo bem que estudou e tem seu valor, é merecido, mas a gente não pode se esquecer dos pequenos”.

Segundo o vereador Jair Rufino, se o “bolo fosse dividido em partes iguais todo mundo ficaria contente”.

Envolvidos por um clima tenso, os vereadores pediram intervalo antes de iniciar a sessão Extraordinária e votar o Projeto. A polêmica se arrastou pelos corredores, e do lado de fora da Câmara funcionários conversavam entre si indignados com a situação, falavam também com vereadores e explicavam suas dificuldades, exigiam seus direitos e, sobretudo pediam ajuda para que o legislativo não fosse complacente com a injustiça que partiu do Prefeito.

Na tentativa de amenizar a discrepância entre os servidores, antes de iniciada a votação Benjamim, Benedito Carlos e Jair propuseram que ao invés dos maquinistas do Prefeito saltassem da referência 12 para a 16, fossem para a 14, “sendo assim o salário passaria de R$ 1.042,00 para 1.400,20, cerca de 35% de aumento, o que seria menos injusto com os demais”, disseram.

Dito Carlos explicou dizendo que da referência 12 para a 16 haveria um desequilíbrio muito grande e injustiça maior ainda com os demais. Após ser novamente aplaudido Dito aguardou a decisão dos colegas referente à emenda. 

Reunidos, os vereadores do Prefeito, conversaram e rejeitaram a emenda. “Se fosse época de eleição todo mundo aprovava”, disse uma servidora visivelmente irritada com os vereadores da situação.

“A impressão que eu tenho é que o projeto já sai votado lá do gabinete do Prefeito. Nós tentamos discutir e chegar a um acordo para o bem de todos. O poder da decisão está nas mãos de nós vereadores, mas a maioria não aceita um acordo”, lamenta Benjamin.

Por fim o projeto foi aprovado.

Revoltados, os servidores se alvoroçaram, vaiaram a atitude dos vereadores da situação e em um só coro gritaram: Greve! Greve! Sugerindo a paralisação dos serviços em forma de protesto, pelo aumento de uma só classe de trabalhadores.

“Dinheiro para aumentar o salário de alguns tem, mas para pagar nossa cesta básica não”, disse uma servidora referindo-se as duas cestas básicas atrasadas, que segundo ela, fazem diferença no bolso dos trabalhadores, que não chegaram a receber nem 6% de aumento.

“O plano de carreira, que o vereador Nilton César disse na tribuna que iria ser implantado, e o prefeito prometeu, até hoje nada também”, disse outra servidora.

Os funcionários se retiraram da Casa de Leis, indignados, se sentindo discriminados, humilhados e desvalorizados: “Isso é uma vergonha, mas não vai ficar assim vamos lutar pelos nossos direitos!”, desabafaram.