O RETRATO DO AUTISMO

por Camila Britto

Crônicas Em 07/04/2018 00:35:43

Nessa semana, assim como em todas as outras, a gente precisa falar sobre o autismo. Mais do que isso, precisamos conversar sobre o que temos medo. E com o transtorno do espectro autista é assim: Desconhecemos, logo temos medo, logo nos calamos. O TEA desperta tanto medo nas pessoas que por muitas décadas esteve envolto em uma cortina de fumaça: pouco se entendia, pouco se tratava, pouco se falava. Hoje, há uma clareza maior, mas ainda existe o medo. E não à toa, pois mesmo os profissionais habilitados e atualizados enfrentam grandes dificuldades para tratar o indivíduo com autismo. Se é difícil pra eles, imagine só receber a notícia de que seu filho, sobrinho, amigo, companheiro, possa ter TEA. E quando surge o medo, criamos mecanismos de defesa. Alguns fingem que o problema não existe, outros tentam abrandar a situação. Também precisamos falar sobre isso. Até porque, negar a existência do transtorno só trará mais limitações para a vida de quem o tem. E atenuar toda a questão também não é a saída. Já vi quem chame pessoas com autismo de anjos azuis, destituindo-os de boa parte de sua humanidade. Ledo engano é pensar que tratá-los como seres celestes e imateriais fará com que algo melhore, pois esse estereótipo de anjo cabe sequer aos que possuem um grau leve do transtorno, e menos ainda aos que estão no nível moderado ou severo. É aí que volto a falar do medo. Pois esse é o autismo que não queremos enxergar. Incomoda, é desconcertante, para alguns chega a ser assustador. Uma criança que não se comunica, que não se alimenta, que parece insensível aos gestos de carinho, que pode em momentos de crise agredir, se descontrolar, repetir frases aleatórias por horas e apresentar fobias. É isso que muitas vezes preferimos ignorar. E é por isso que insisto que é justamente sobre isso que devemos falar. Nunca será fácil, mas precisamos estar um pouco mais preparados para compreender o TEA, e para isso não é preciso ter sido diagnosticado com ele. Esse entendimento vai tornar mais fácil a vida de mães, pais, professores, e toda e qualquer pessoa que lide de perto com o transtorno. Nessa semana, o 1º Simpósio Municipal de Santa Isabel sobre Autismo deu esse passo inicial. Que possamos entender a importância dessa ação e incentivar para que outras aconteçam, e que as discussões se aprofundem cada vez mais. O diferente sempre nos assustou, e o receio de se aproximar mais desse universo singular só nos empobrece. Parafraseando a notável cientista diagnosticada com autismo Temple Grandin, o autismo pode fazer parte de nossas vidas, mas não precisa defini-la.