Procura-se psicólogo eleitor do Bolsonaro

por Camila Britto

Crônicas Em 21/09/2018 20:42:48

No grupo de indicação e procura de profissionais de psicologia, estava o aviso de um participante: “busco para um amigo indicação de profissional de psicologia que atenda na região de São Paulo e seja eleitor do Bolsonaro. A exigência é demanda do cliente, grato”. 

Imaginem só o rebuliço, pensem só na quantidade de comentários, críticas e reações. Eu mesma me surpreendi, e ainda acho se tratar de uma piada. 

É fato que o período eleitoral tem alterado os ânimos e colaborado para o término de amizades, mas a mensagem do grupo que transcrevi acima me fez refletir sobre um ponto que acredito ser relevante. 

Há muito tempo vejo as pessoas se confundirem de maneira infeliz. Vejo isso nas ruas, nas redes sociais, em todo lugar. 

No mesmo grupo em que o rapaz exigia um eleitor de Bolsonaro, também existem pessoas que aceitam somente psicólogos dentro de algum padrão: deve ser mulher, deve ser negro, deve ser homossexual, deve ter um posicionamento de esquerda. Citei esses exemplos pois são os que mais encontro, mas há uma infinidade de requisitos. 

E o que isso significa? Para mim, estão obviamente confundindo lugar de escuta com lugar de fala. Explico: para atender satisfatoriamente um cliente, o psicólogo precisa, na opinião de muitos, ter as mesmas ideias e posicionamentos que ele, e, além disso, ter vivenciado as mesmas experiências. 

Ora, será que isso realmente garante que um bom trabalho seja feito? Será que somente alguém, que passou exatamente pelas mesmas coisas que nós, será capaz de empatizar e compreender? 

Pois eu discordo disso. Meu lugar de fala enquanto sujeito é importante, mas em meus atendimentos a prioridade é dada à escuta qualificada e capaz de ouvir angústias de todos os tipos, respeitando-as e acolhendo-as. 

Não raramente, diante dos dias confusos em que vivemos, percebo os que desrespeitam o lugar do outro, querendo obrigá-lo a falar, a se posicionar. 

A todos os que leem esse texto, posso afirmar: somente poderemos falar em respeito e defesa da democracia quando aceitarmos o lugar de cada um e suas decisões, mesmo que nos pareçam desagradáveis e inferiores. Ainda acho que o que há de mais incômodo para boa parte das pessoas é o fato de não conseguirem estabelecer um monopólio mental onde todos concordem com a sua maneira de ver o mundo. Diante disso, esbravejam e investem em textões e imagens de internet elaboradas por outros e compartilhadas compulsoriamente. E será que isso funciona? 

Os mais sábios conselhos não servem de nada se não fizerem sentido para aquele indivíduo, se ele não se sentir respeitado em suas opiniões, se ele não compreender determinada realidade como um todo. 

Que sejamos então mais empáticos e compreensivos, e que usemos nossa energia para defender nossas ideias, sem precisar menosprezar as dos outros. Temos um grande desafio pela frente!