Plantio da prosperidade em Santa Isabel

Família Hira e as oportunidades que semeia no campo. Alimento sem agrotóxico plantado pela sabedoria

Cidades Em 26/06/2020 17:38:27

Por Érica Alcântara

Hoje, sentada à mesa das refeições junto ao campo de plantio Eliza Hideko Tanoue Hira, 61, reflete sobre seu passado como parte de tudo que a trouxe até aqui. Para ela, Deus já sabia que os ensinamentos de seu pai fariam a diferença no futuro incerto de todos os seus descendentes.

Também hoje, Eliza é o norte do campo, ela calcula em sua mente o tempo de plantio de cada verdura ou legume, contabiliza as estações e acompanha na folhinha a lua. Isso mesmo, a lua influencia o tempo certo de plantar para colher. E tudo isso, aprendeu ainda menina nas tarefas do dia a dia com seu pai.

Nem sempre a mesa esteve farta, sua história se parece com um roteiro de cinema. Era uma das filhas mais velhas, então, quando os tempos eram de dificuldade, só os irmãos mais novos, entre os oito que seus pais tiveram, ganhavam um pedaço de pão. 

A Eliza que atualmente trabalha com seus filhos cerca de 14h por dia, de domingo a domingo, plantando alface, couve, brócolis, cenoura e muito mais, esta mesma Eliza na infância muitas vezes fez sua única refeição na escola, no horário da merenda.

“Os tempos eram difíceis”, ela recorda. 

Sua casa ficava a 11 quilômetros da escola e todos os dias ela fazia este percurso a pé e descaça, colhendo no caminho pedaços de revista e folhas de jornal, onde poderia anotar as aulas já que caderno ela também não tinha. 

Nos dias de chuva, Eliza amava ir à escola, chegava na sala tão ensopada que os professores lhe davam roupas secas para se trocar, então os dias de chuva eram também dias de ganhar presente. Não importa se a roupa era usada, doada por causa da chuva que pegou no caminho. 

Seu pai plantava parte dos alimentos que comiam, Eliza o acompanhava e aprendia. Muitas vezes ela o viu usar agrotóxicos para proteger as folhagens e sentia que aquilo era veneno. “Isso me traumatizou um pouco. Mas eu não tenho mágoa de meu pai por nada. Sei que fez o melhor que podia. Mas foi nesta época que fiz uma promessa: se um dia eu tiver filhos, eles jamais vão comer essas toxinas”, recorda.

Anos mais tarde, já na mocidade, Eliza conheceu o japonês Ichiro Hira. Se apaixonaram e a história de amor deles merece um capítulo à parte que podemos contar outro dia! Eles precisaram de coragem para deixar o coração falar mais alto. E quando os filhos vieram, Eliza se lembrou de sua promessa e começou a plantar no quintal de casa. “Não era um negócio, era um compromisso com a minha família”, recorda.

Até então os recursos da casa vinham do trabalho com pedras decorativas, ou as refeições (yakissoba) que vendiam na Praça da Bandeira. Tudo começou a mudar quando a filha começou a levar algumas verduras para seus pacientes de fisioterapia em São Paulo. 

Os alimentos sem agrotóxicos não eram os mais bonitos, mas eram os mais saborosos, e o que era presente, passou a virar encomendas. E os presenteados pediram para que Eliza transformasse sua paixão em alimentar a família em um negócio. E foi assim que o quintal de colheitas individuais se transformou na Fazenda da Prosperidade.

Constante Aprimoramento

A última vez que Eliza tirou 15 dias de folga, planejou como se ausentaria por tanto tempo durante seis meses. Fez um script de cada plantio e colheita e seus conhecimentos sobre o manejo da terra impressionam os mais leigos, como a própria equipe de reportagem!

Mas saber lidar com a terra não basta. 

A família inteira está passando por uma reciclagem. Inscritos no projeto ALI (Agente Local de Inovação) promovido pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – Sebrae, juntos estão aprendendo a levar alimentos saudáveis para outras mesas, ampliando o atendimento que antes era presencial para o virtual. Também estão ampliando as habilidades de pesquisa de trabalho, aprimorando o acolhimento aos clientes e até estudando a possibilidade de criar um aplicativo próprio.

“O nosso consultor Ed nos ajuda a ter uma visão diferente, a entender melhor nosso sentimento de propósito e negócio. Hoje, pacientes com câncer estão na lista de nossos clientes, sabemos que precisam de alimentos saudáveis e quando plantamos sabemos que estamos salvando vidas”, diz Eliza notoriamente emocionada. 

O estudo é parte do trabalho da família, também fazem parte do Programa Olericultura Orgânica do SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) e a estufa com as mudinhas plantadas antes da pandemia estão lá, à espera de retornarem as atividades.

Escrever sobre a Fazenda da Prosperidade é também escrever sobre a família, sobre a união, sobre o esforço diário de plantar e colher o que se planta. Em tempos de pandemia, um olhar esperançoso para os tempos que virão.

Para saber mais, o telefone da Fazenda da Prosperidade é (11) 99109-8737.