Pelo Telefone

por Roberto Drumond

Crônicas Em 16/10/2020 21:15:57

O episódio da libertação do líder do tráfico, André do Rap, acusado de gerenciar o envio de grandes remessas de cocaína para Europa ocorrida na manhã de sábado passado (10/10) poderia ter sido evitado. Bastava o Ministro Marco Aurélio de Melo descer do pedestal e pegar o telefone e evitar o linchamento moral a que foi submetido essa semana.

Pelo telefone é considerado o primeiro samba. De autoria de Donga, que a internet me ensina chamar-se Ernesto Joaquim Maria dos Santos, composta em 1916. Nela o músico conta que o chefe de polícia manda avisar que “na carioca tem uma roleta para jogar”, deixando claro que a Polícia estava, já naquele tempo de Rui Barbosa, conivente com a jogatina. 

Bastava o Ministro pegar o telefone e avisar ao Juiz da Primeira Instância, aquele que determinou a prisão temporária do André Oliveira Macedo, que o prazo para a prisão do reconhecido chefão do crime, estava esgotado e que era necessário rever. Mas, como se diz no jurisprudez “quedou-se silente”, fazendo a omissão dos outros, a aliada para a sua canetada libertadora.

André do Rap disse que ia para um lugar e foi para outro. Disse que ia de carro e foi de avião e aí entra outra música do Brasil, não tão histórica quanto a primeira.  “Agora é Tarde”. De música em música que nesse país tão criativo, pode ser que acabe naquela de Bezerra da Silva, “Festa de bacana” onde se gritar, não fica um!

O que fica claro nesse episódio é que no emaranhado de leis, onde o STF (Supremo Tribunal Federal) devia agir com o objetivo de esclarecer, dissipar dúvidas e defender os interesses do Estado, as brechas servem para atender interesses aparentemente privados, senão escusos. Fosse o famigerado bandido, já condenado por duas vezes, apenas um ladrão de sabonete estaria, como muitos estão aguardando decisões que nunca saem da Primeira Instancia.

Mas o André do Rap é um privilegiado nessa Justiça que não consegue ser igual para todos, pois nem todos contam com o suporte jurídico para recorrer, percorrer corredores e gabinetes em busca de pontas de meadas que possam conduzir a uma decisão monocrática, num final de tarde de uma sexta-feira, véspera de um fim de semana prolongado. 

 Nessa trilha musical até a decisão tomada algumas horas depois pelo Ministro presidente do STF, Luiz Fux, suspendendo a decisão só piorou a rima. Mostrou que quem deveria esclarecer, complicou ainda mais. Só para terminar: “Agora é cinza, e nada mais!”.