Patrimônios perdidos ou não identificados de Santa Isabel

“Vamos ver se viverei até lá na frente, para ver se Santa Isabel volta a ser o que era antes”, diz Gaspar, 69, com saudade das raízes que, para ele, foram esquecidas com o crescimento do município

Cultura Em 06/07/2013 11:59:56

Repórter: Bruno Martins e Erica Alcântara

“Santa Isabel, nunca se preocupou em preservar a sua própria história essa é a verdade”, este é o desabafo do isabelense José Gaspar Barbosa, 69. Gaspar acompanhou o crescimento do município e hoje vê parte da sua história ser esquecida ou abandonada.

Em uma tarde bucólica, sentados na porta de um bar no Centro, Gaspar e o amigo Joraci dos Santos, 76, lembram com saudades os lugares que eles frequentaram na antiga Santa Isabel, quando o chão ainda era de terra e os ribeirões ainda eram límpidos: “Essas casas que hoje vemos com as paredes descascadas quase caindo e a maioria delas pinchadas, antigamente eram as casas mais bonitas dessa cidade e algumas pertenciam a pessoas bem influentes, de famílias importantes que marcaram a história do município”, ressalta José Gaspar.

Joraci lembra que em 1942 “vinha com a minha mãe neste ponto comercial em frente à Praça da Bandeira para comprar alimentos para nossa despensa”, sua recordação é completada pela do amigo que destaca que ali havia seis mesas de snooker e que o local conhecido na época como “Bar do Beijo Barbosa” foi por muito tempo o ponto de encontro entre amigos.

Ao lembrar das festas da cidade os amigos contam que muitas delas foram esquecidas com o tempo e sentem falta de festas como a Congada, o Moçambique; a Função onde os festeiros fazem 12h de comemoração sem parar e as Cavalhadas. 

Emocionados os amigos lembram que, na primeira segunda-feira de agosto, eles sempre subiam o Monte Serrat para fazer a carpição do local: “a ladeira era de terra, o mato crescia muito rápido e tinha que ficar limpo antes do dia 15, quando começava as festas de Nossa Senhora do Monte Serrat, hoje dá tristeza ver que uma igreja histórica está esquecida”, lamentam.

“Não gostei quando trocaram o telhado da Igreja do Rosário, como é que pode uma igreja que é de 1723 ter telhas comuns ao invés de telhas históricas?”, questiona Gaspar. 

O Plano Diretor Estratégico de Santa Isabel (Lei no106/2007) especifica 22 pontos turísticos na cidade, alguns destes, imóveis particulares considerados patrimônios do município que não podem sofrer alterações. Entretanto, alguns já foram demolidos ou sofreram reformas que os descaracterizaram. 

Conheça os patrimônios de Santa Isabel:

1.Capela e Obelisco 13 de Maio – Um dos patrimônios mais preservados do município

2.Casarão da família de Dário Vieira de Paula – Em reforma para recuperação da fachada conforme acordado com o Prefeito Padre Gabriel Bina

3.Largo 20 de Novembro - Homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra 

4.Cine Teatro Montenegro - Propriedade da secretaria Municipal de Educação

5.Pouso dos Tropeiros na Rua João Pessoa – Procura-se

6.Coreto da Praça da Bandeira 

7.Igreja do Rosário – Datada de 1723 é a igreja mais antiga do município

8.Biblioteca Municipal Maria Helena Marcondes - foi o primeiro paço municipal de Santa Isabel 

9.Igreja Matriz de Santa Isabel  

10.Casa Paroquial na Rua Padre João Orlando da Cruz 

11.Casa do espólio de Julião Barbosa – Demolida

12.Praça Poeta Antônio Maurício de Souza 

13.Ponto de comércio de escravos, situado na Avenida Manuel Ferraz de Campos Sales, esquina com a Santa Cruz – Procura-se

14.Capela Santa Cruz 

15.Marco na luta contra a hanseníase, situado na antiga Igreja São Lázaro – Procura-se

16.Praça dos Expedicionários – Descaracterizada pela própria administração pública em 2011

17.Igreja Nossa Senhora Aparecida 

18.Paço Municipal e antiga Cadeia Pública – descaracterizado pelas reformas públicas

19.Teatro Gabriel Cianflone - Desativado há anos, não há vestígios de como era ou como funcionava o local

20.Casarão da família de Luiz de Almeida Machado 

21.Pouso de Tropeiros, na esquina da Rua Monte Serrat com Avenida João Pires Filho

22.Capela Nossa Senhora do Monte Serrat, Mirante e encostas do Monte Serrat – O local é frequentado devido a vista panorâmica da cidade, mas é alvo frequente de vandalismo   

 

No art. 57 do Plano Diretor consta que: “nestes locais serão instalados marcos de referência, de representação e de significação cultural para informação e orientação de moradores e visitantes no município”. Contudo, dos 22 lugares apontados como patrimônio histórico mais da metade não possui placas de identificação.  

Durante apresentação na Câmara Municipal, o secretário de Planejamento e Obras, Daniel Polydoro, informou que em breve haverá uma revisão geral do Plano Diretor, os vereadores questionaram a existência do corredor histórico e alguns instigaram a sua extinção.

Para os isabelenses que acompanharam o desenvolvimento do município, ainda mais agora, próximo de seu aniversário de 181 anos, “o ideal seria não a extinção, mas o resgate de todos os patrimônios que nos fazem recordar como gradativamente evoluímos”, finalizam.

 Até o fechamento desta edição a assessoria de imprensa da Prefeitura, não respondeu aos questionamentos da equipe de reportagem.