PASSA A BOIADA!

por Roberto Drumond

Crônicas Em 31/07/2020 22:24:17

Aproveitando que a imprensa e o Brasil inteiro está de olho no avanço da covid-19 o governo federal e o governo de São Paulo estão dispostos a fazer o possível para passar a boiada, rearranjando as leis conforme suas conveniências.

A idéia é antiga. Desde que inventaram leis que podem desagradar a população elas são implementadas em momentos em que a sociedade está de olho em outras questões. É o que acontece frequentemente nos finais de ano, durante a copa do mundo ou, especificamente, como sugeriu o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles na fatídica reunião ministerial do dia 22 de abril, “enquanto toda a mídia está de olho na pandemia”.

Levantamento do jornal Folha de São Paulo constatou que entre os meses de março e maio desse ano a boiada do governo federal passou 195 atos ligados à preservação ambiental. Foram liberações e até mesmo novas interpretações de termos das leis. Literalmente flexibilizando o ataque às restrições ambientais.

Mas não foi apenas o governo federal o autor dessa manobra. Também o governo do estado de São Paulo acelerou o exame do projeto de lei 250/2020 que aumenta o Imposto sobre Transmissão de bens imóveis por causa mortis). O valor do imposto que atualmente é de 4%, passará para 8%, o dobro. É, em um momento em que a covid ceifa a vida de milhares de pessoas, notadamente os mais velhos que deixam como heranças, bens imóveis.

Há muito o governo sonha em aumentar os impostos sobre grandes fortunas, mas se esquece que, no caso dos bens imóveis, as grandes fortunas não os possuem, deixam geralmente em nome de empresas que possam respaldar as suas necessidades de investimentos. Assim, o imposto vai incidir sobre o apartamento ou o sobrado adquirido pela classe média, pobrigada a registrar os imóveis em seus próprios nomes de forma a garantir os empréstimos ou os financiamentos da casa própria.

Esse oportunismo sórdido tem uma razão de ser que a maioria nós não nos lembramos. A pandemia do Covid-19 está aliviando o caixa da previdência. A morte de idosos e aposentados nem sempre representa uma pensão para os parentes que ficam, deixando esses recursos no caixa da previdência que, diante das reformas, viu crescer ainda mais o seu alívio.

A boiada vai continuar passando! E outros poderes parecem que diante da população assustada com a pandemia, querer se aproveitar para lançar mãos de artifícios para alimentar os seus interesses.

Vamos ficar atentos. Há muita poeira na marcha dessa boiada ou, como dizia minha santa mãezinha, debaixo do angu tem muito caroço!