Papai Noel no Carnaval

Neste Carnaval, Papai Noel é presença confirmada no bloco dos garis

Cidades Em 01/03/2019 20:09:01

por Érica Alcântara

Luis Ferreira dos Santos, 66 anos, começa o trabalho às 5h. Sua área de atuação é a Praça da Bandeira, uma das principais áreas de concentração dos amantes da folia no Carnaval. Luis é gari em Santa Isabel, varre as áreas públicas de janeiro a novembro, mas em dezembro ele veste seu manto vermelho e vira o Papai Noel de uma centena de crianças e idosos, trabalho que realiza desde 2013.

Filho de Dario e Geralda, Luis tem outros sete irmãos e o Natal sempre teve gosto de esperança. A família se reunia na sala, à espera da cesta de guloseimas que o pai escondia em cima do armário, à vista de todos, mas fora do alcance das mãos dos pequenos. A fantasia do Papai Noel veio muito mais tarde, quando a barba por fazer virou brincadeira entre os varredores e logo depois virou ofício durante as férias dos serviços municipais.

Em março sua fantasia é a alegria, o trabalho requer uniforme e boa vontade. “Em qualquer trabalho o que se precisa é gostar do que se faz, o meu serviço é como de qualquer outro, do artesão ao artista da televisão, é só gostar e não ter preguiça”, conta.

Em dezembro, Luis vai nos asilos vestido de Noel e distribui balas ou abraços. “Às vezes os idosos choram de emoção com o Papai Noel, já as crianças, as mais curiosas, puxam a barba para ver se sou de verdade, mas eu sou e a ideia da fantasia é levar alegria e promover o bem”, diz.

No Carnaval, Luis recolhe das ruas copos, garrafas e até camisinhas. Varrer as ruas revela muito sobre a festa. “Me preocupa a juventude de hoje, muitos têm mais acesso a informação e também mais vícios que a minha geração, amante da Jovem Guarda e músicas de amor e aventuras”, reflete.

Luis recebe a jornalista no refeitório da secretaria de serviços municipais, sentados cada qual numa cadeira de escola, daquelas de madeira em que cadeira e mesa estão presas uma a outra. Ele sorri timidamente, enquanto ganha a confiança para falar sobre si mesmo, feito as crianças que ele mesmo conta que no Natal sentem o medo do Papai Noel até sentirem que podem confiar.

Aliás, confiança e simplicidade são coisas das quais Luis fala e valoriza como ensinamento passado por seus pais e pela fé que cultiva em casa, sozinho, sem esposa nem filhos. Se na infância Luis tinha por sonho ser cantor, hoje, apesar do sorriso em falhas que desaparecem sob o pêlo da barba, seu sonho é ter uma chácara, talvez para repousar sorrisos que não lhe faltam.

Quando questionado sobre que tipo de mensagem gostaria de passar para as pessoas que lessem sua história, Luis diz:

"Acredite no Senhor, tenha mais força de vontade e goste das pessoas, seja sincero com elas. Jesus deu a vida por nós, por que não fazer dela algo melhor? Perdoa quem te magoou, feriu ou mentiu. Jesus fez a palavra perdão ter sentido quando deu a outra face. É difícil dar a outra face, só praticando. Guarde em tempos fartos e compartilhe os frutos em tempos magros", finalizou.