País das Maravilhas

por Roberto Drumond

Crônicas Em 09/02/2018 19:16:34

Quando eu era menino o carnaval era diferente. Interrompia as aulas, mas os trabalhos continuavam. As fantasias eram de papel ou de tecidos baratos e as pessoas se respeitavam. Havia bebidas, certamente havia drogas (mas eram escondidas, clandestinas e realmente proibidas). Um dia contaram que uma pessoa tinha usado “cherinho da Loló”, as famílias se escandalizaram.

Naquele tempo as coisas pareciam mais fáceis. Tinha a porta-bandeira, tinha o mestre sala, o pierrô  e a Colombina. Sabíamos que era o bandido e o mocinho, o polícia e o ladrão, dançávamos e pulávamos os meninos girando para um lado e as meninas para o outro e as fantasias não se misturavam nem na gaveta do armário. Hoje as coisas se misturaram tanto que Peter Pan e o Pirata já almoçaram com o Jacaré, enquanto o Capitão Gancho fica com a Alice e Chapeuzinho Vermelho flerta com Branca de Neve. Só que não é mais o país das maravilhas.

Tudo mudou. O carnaval era uma alegria que interrompia a infância tranqüila dando um sabor diferente para a vida por uns poucos dias e logo voltava ao normal com a cruz de cinzas desenhada na testa dos devotos. Ninguém temia o fim do carnaval nem ele era tão desejado, como uma tábua flutuando no meio do naufrágio.

Hoje o carnaval parece um ato de desespero de uma sociedade ardentemente querendo esquecer a tempestade. Uma fuga na exuberância das fantasias ricas e deslumbrantes, na nudez de mulatas esculturais, nos fortes apelos para a sexualidade e para a frugalidade, para o descompromisso para com a vida real, na beleza e no falso colorido dos carros alegóricos cuja graça derrete como manteiga exposta ao sol.

Recebi de um amigo um whatsapp. Dizia: “a crise no Brasil termina na noite de sexta feira e volta somente na meia noite da próxima quarta-feira”. O Brasil para, e para numa hora que não deveria parar. E vai parar de novo na copa do mundo e depois nas eleições. Numa sequencia de interrupções que nada contribuem para a qualidade de vida do cidadão, seja rico ou seja pobre. Talvez esse até mesmo se regozije juntando as latas, os plásticos e os restos de uma festa que não é a dele, que não é de ninguém exceto das emissoras de TV, das fábricas de bebidas  e das indústrias de produtos falsos e efêmeros.

Na quarta-feira talvez tudo mude. Depois de tirar a fantasia, arrancar as máscaras tudo volte ao normal, mas há quem diga que no final da noite de quarta-feira tudo que se sabia como certo vai realmente virar cinzas e teremos de volta, o pesadelo que se transformou a realidade do país