OS FILHOS DA VIOLÊNCIA

por Camila Britto

Crônicas Em 26/01/2018 18:34:53

Antes de nos tornarmos algo por nós mesmos, somos vestígios de histórias e o resultado de expectativas, traumas, e todo o peso que depositam sobre nós. É assim antes de nascermos, e continua a ser dessa forma a cada dia de nossas vidas. Na oportunidade de ser pai ou mãe, revisitamos nossa condição de filhos. Nesse momento, podemos de maneira consciente ou não, reproduzir o que nos foi ensinado, perpetuar o amor que nos foi dado, repetindo um modelo que ficou impregnado em nossa mente e em nossos corações. Nesse contexto, cada um recebeu algo diferente em sua criação. As relações de base que vivenciamos com nossos pais no passado, serão um esboço dos pais que seremos no futuro. O infortúnio é que, seguindo esse raciocínio, teremos não apenas os filhos de pais saudáveis psicologicamente, mas também os filhos do abuso, do desrespeito e do amor que adoeceu e não soube ser expressado adequadamente. No instante em que os filhos de pais violentos tornam-se agressores, instala-se um ciclo de violência cruel, e que faz do lar, não um lugar de segurança e amor, mas de horror e medo. Essa não é uma condição definitiva e/ou inevitável, mas é uma situação que explica o porquê de tantos indivíduos entrarem e permanecerem em relações abusivas, como se estivessem presos. De certa maneira, é de fato uma prisão emocional situada no passado. Apesar de todos os ciclos possuírem a tendência de se manter, os filhos da violência têm sim caminhos diferentes que podem seguir, e o mais engrandecedor deles está na estrada da resiliência. Ela não irá permitir que uma conduta agressiva e prejudicial vivenciada no passado seja um mau presságio para o futuro. Pense agora em uma situação, qualquer uma, seja uma gestação não planejada, um casamento arranjado ou prematuro, relações problemáticas, filhos dependentes, pais inseguros, ou seja lá o que for, que você tenha visto em sua família. O quanto disso está sendo reproduzido em você? O quanto pode estar afetando negativamente sua vida de agora? Somos seres imitativos. Nosso inconsciente pode registrar uma situação que já ocorreu como mais segura, e tender a reproduzi-la sem muitos questionamentos. Por isso o autoconhecimento e a auto-observação são tão valiosos. Se há angústia, sofrimento, dificuldades de evolução, tente desprender-se. Também somos feitos de passado, mas não é lá que devemos morar. 

“Somos tecidos de histórias. Para ser pais, é preciso narrar, mas a premissa é ter sido filho e saber disso de algum forma” – Celso Gutfreind, psicanalista e escritor brasileiro.