Onde estamos errando?

por Roberto Drumond

Crônicas Em 02/08/2019 19:11:28

Peço emprestada a música “Notícia de jornal” de Chico Buarque de Holanda. Diz a letra de uma linda melodia: “Tentou contra a existência/ Num humilde barracão/ Joana de tal, por causa de um tal João./ Depois de medicada Retirou-se pro seu lar/ Aí a notícia carece de exatidão/ O lar não mais existe/ Ninguém volta ao que acabou/Joana é mais uma mulata triste que errou/ Errou na dose/ Errou no amor/ Joana errou de João/ Ninguém notou/ Ninguém sentiu a dor que era o seu mal/ A dor da gente não sai no jornal.

Todos os dias somos surpreendidos por notícias que nem sempre saem nos jornais: a dos jovens que se matam apesar da possibilidade de uma vida maravilhosa pela frente. Dizer que é consequência da depressão que nem todos percebem, apesar de ser reconhecida como o mal do século XXI, é fácil.

É fácil culpar o mistério, como é fácil culpar o destino. Mas é difícil responder à pergunta que insistimos em não fazer. O que está causando tanta depressão em pessoas que, diferente da Joana da música de Chico, nem sempre erraram de João.

Embora não seja nenhum especialista no tema enxergo a depressão como um mal imposto pela sociedade. Nos últimos anos do século XX e agora no início desse milênio os seres humanos foram e estão sendo reduzidos a meros consumidores. Somos uma massa de pessoas a quem a sociedade está impondo hábitos, estilos e condições de vida que não refletem às nossas aspirações.

A meu ver estamos trocando os nossos sonhos pelas aspirações coletivas. Somos apenas um indivíduo entre outros que definem, através de pactos independentes dos nossos desejos, tudo o que devemos ser. Na sociedade moderna, muito mais conduzida e massificada pelas redes sociais, pela internet e pela generalização a exclusão da individualidade está causando a depressão.

O indivíduo é estimulado a participar de uma sociedade da qual ele não consegue compreender. Quando formularam as teorias que explicam  os caminhos que formaram estados para manter a ordem social, os filósofos como Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rosseau não vislumbraram um mundo como o existente hoje onde a simultaneidade dos fatos universalizam de tal forma a sociedade, que o indivíduo se torna solitário apesar das milhões de outras pessoas que o cercam, mas que permanecem solitárias nos próprios sonhos, aspirações e nas próprias dores buscando no encerramento da vida, o remédio para o seu mal.