Ocupação irregular é realidade na região

Em Arujá, no Bairro Jd. Via Dutra, Vila Socó, os moradores reclamam que 200 famílias vivem à margem da sociedade em completo abandono. Em Santa Isabel, prédio público é referência de usuários de entorpecentes

Cidades Em 11/05/2018 23:07:31

por Gabriel Dias e Érica Alcântara

11 dias após a trágica queda do prédio Wilton Paes de Almeida, no Centro de São Paulo, os bombeiros descartaram ontem, dia 11/05, a possibilidade de encontrar algum sobrevivente. As ocupações irregulares não são uma realidade somente da Capital Paulista, em Arujá no Bairro Jd. Via Dutra e em Santa Isabel no Brotas, esta já é uma realidade de centenas de pessoas.

Em Arujá, no Bairro Jd. Via Dutra às margens da Rodovia Pedro Eroles, o espaço de uma empresa desativada, conhecida como antiga Tecnon, serve de moradia para aproximadamente 200 famílias. O lugar é ocupado desde 2003 e a primeira moradora é Valdevina Pereira da Silva, mais conhecida como Dona Val, 53 anos, mãe de sete filhos, que transformou uma guarita em residência, onde vive com os dois menores. Os outros cinco, como já cresceram, habitam outro lado da mesma área ocupada.

Algumas casas são improvisadas, outras não. A fiação elétrica se apoia nos telhados de cada moradia e é chamada de “gatos”, todos feitos pelos próprios moradores.

Os postes que iluminam as estreitas ruas da entrada da área ocupada são feitos artesanalmente e em cada esquina tem um igual. “Às vezes apaga tudo, dá uma sobrecarga de energia e ficamos no escuro”, diz um morador da ocupação.

Dona Val diz que todo o Bairro Jd. Via Dutra precisa de atenção e de serviços básicos como transporte público e um posto de saúde.  “Quando precisamos passar no médico, pegamos um ônibus aqui na beira da Rodovia até o centro de Arujá, é muito perigoso e já perdi a conta de quantas pessoas morreram tentando atravessar”, lamenta.

Escola para quem ocupa 

A questão da educação básica para as crianças que vivem na área ocupada do Bairro Jd. Via Dutra ainda é um dilema. De acordo com os pais, para que seus filhos estudem nas escolas municipais de Arujá, eles precisam apresentar um comprovante de endereço, o que nenhum deles possui. Para garantir a educação de seus filhos eles procuram comprovantes de endereço de conhecidos que vivem no centro e em Bairros mais conhecidos de Arujá.

Coleta de Lixo

Depois de muitos anos e vários problemas com a coleta de lixo, os próprios moradores resolveram se unir e construir na entrada da ocupação uma lixeira de alvenaria. Dona Val diz que o caminhão da coleta se recusa a circular na área ocupada, por se um espaço particular.

Medo

O medo do despejo faz companhia para cada morador que vive da antiga Tecnon. “Já fizemos diversos abaixo-assinados pedindo apoio das gestões públicas para resolver a questão da moradia. Há anos pedimos proteção e não perdemos as esperanças”, diz Dona Val. 

Ocupação em Santa Isabel

No Bairro Brotas de Santa Isabel, um prédio público é alvo constante de invasão e ocupação, considerada predatória. O Centro de Exposições situado na Praça da Feira abriga pessoas em situação de rua, a maioria usuários de entorpecentes.

A Prefeitura fez uma ação conjunta no local, com agentes das secretarias de Promoção Social, Meio Ambiente, Esportes e Saúde. Mas as invasões se repetem arrombando as portas de madeira, que hoje estão definitivamente quebradas.

Na terça-feira, 08/05, um rapaz de 30 anos que estava no local explicou que ali, mesmo com o frio, é um lugar melhor que se esgueirar pelos toldos das lojas do Centro. Enquanto ele falava com a reportagem, outras sete pessoas aparentemente usavam entorpecentes.

“A maioria aqui tem família, tem quem cuide da gente, mas infelizmente as coisas não são fáceis assim. Comecei a usar crack quando minha mulher me deixou. Sair da droga é difícil, tem que querer muito, caso contrário não tem tratamento que funcione”, disse. 

O rapaz estava limpo, diferente do Centro de Exposições, cheio de lixo espalhado e as marcas de fuligem nos cantos, onde supostamente eles reúnem tranqueiras para fazer uma fogueira para esquentar comida.

O jovem diz que já foi preso, por assassinato, busca o celular que estava carregando a bateria no Terminal Rodoviário e deixa escapar uma expressão de emoção ao mostrar a foto da família. “Eu sei que sou amado, olha. Eu sei que sou, mas minha história não inspira nada, nem ninguém”, finaliza.