O tempo

Cronica de Solange Amado

Crônicas Em 09/03/2016 10:34:58

Quase todo mundo conhece a história. Mas posso refrescar a memória de alguns: era uma vez um cara que tinha o péssimo hábito de surrupiar coisas. Uma vez, ao passar por uma fazenda, viu uns leitõezinhos muito apetitosos, olhou para um lado, olhou para o outro, não viu ninguém. Pegou um leitãozinho, botou nas costas e se dirigiu à toda para a estrada. O bicho se retorcia e guinchava feito louco, mas o homem segurava forte, enquanto o bicho dava safanões. Até que chegaram à estrada. De repente, deram de cara com o fazendeiro com uma baita espingarda nas mãos. O homem soltava fogo pelas ventas. E manejava a carabina aos berros: “Ah! Então é o senhor que anda roubando os meus porcos!” Apavorado, nosso amigo gaguejou: “Porco? Que porco? Meu Deus! Tire esse bicho daqui! Tire esse bicho daqui!!”

Não sei vocês, mas nesse imbróglio político brasileiro, o que eu mais ouço é isso: “sítio? Que sítio? Tire esse bicho daqui!” “Conta? Que conta? Tira esse bicho daí!” E essa nau sem rumo vai navegando aos trambolhões com o porquinho sem dono estrebuchando e berrando tão alto que dá pra ouvir do Oiapoque ao Chuí.

No meio disso tudo, nós brasileiros, vamos tentando viver o nosso kairós, ou seja, viver prazerosamente o nosso tempo. Sem contas no exterior, e sem porquinhos. E sem culpa, porque não nos resta outra opção.

E explico, podem me corrigir se estiver enganada. Os gregos tinham uma quantidade incomensurável de deuses. Chronós e Kairós eram os deuses do tempo, filhos de Zeus. E Kairós era o caçulinha, e talvez tenha vindo para suavizar a inexorabilidade de Chronós, deus do tempo quantificado, aquele que se pode medir, que é ordenado pelo relógio, aquele que devagar vai nos levando  ao cemitério, contrariados, à força, mesmo que a gente resista e estrebuche  que nem o porquinho da história. Chronós é um bocado severo. Kairós, ao contrário, não se ocupa de passado ou futuro, para ele existe o instante presente. Esse presente do agora, que nos permite neutralizar o caos e abraçar a felicidade. Parece simples.

Aí, voltamos ao porquinho guinchando e se contorcendo. Como ignorá-lo, como neutralizá-lo e viver o nosso kairós em paz? Enquanto é tempo.

Não que eu pense em me sentar numa nuvem tocando harpa, enquanto o sol queima, o transito dá nó, o garotinho passa com os olhos de fome e o nariz escorrendo. Perdeu! Perdeu! Eu fico sem a carteira e sem a harpa.

Se estou inexoravelmente atada a Chronós, que vai me carregando sem dó nem piedade com o plissado e as dores da velhice, para o beco sem saída da morte, o que eu quero aprender na verdade, se não posso parar essa marcha, é a fazer pequenas pausas pelo caminho, quando o pasto for verdejante, quando a primavera chegar, quando ouvir uma canção de Piaf, uma palavra amiga, quando os dedos do amor tocarem meu coração e ele se puser a galope. Por uns poucos momentos, que sei eu? Posso driblar Chronós e descansar nos braços pacificadores de seu irmão Kairós, que eu mereço.

Só tem um problema. E aí faço uma alerta a todos os que querem usufruir desse oásis, sempre que Chronós der uma cochilada. É preciso estar muito atento. Diz a lenda que Kairós é muito rápido, anda nu e tem asas nos ombros e nos calcanhares, e como em certa época o Ronaldo Fenômeno, tem só um tufo de cabelo na testa. Só se pode agarrá-lo segurando esse topete. Daí que é preciso estar muito ligado. Deu bobeira, perdeu! Não só a bolsa, o carro, os documentos. Perdeu o momento, a oportunidade.

E essa eu não quero perder. Tenho um CD novo, um pedaço de chocolate, uma piscina, um dedo de prosa com um amigo e esse mundão de palavras pra brincar.

Perceberam? Apesar do barulho, dos guinchos, desse país que é um enguiço, das maldades de Chronós, sou esperta. Consegui agarrar o topete de Kairós. Agora.

Então, nada de bobeira. Ele pode estar passando aí nesse momento!

 

 

 

Maria Solange Amado Ladeira        08/03/2016