O sol da minha infância

Por Solange Amado

Crônicas Em 29/04/2016 14:50:37

Solange Amado

 

Lá estava eu visitando a minha infância. No segundo dia, o sol me acordou com um beijo quente e alaranjado. Não sei como descobriu que eu estava lá. Eu não estava a fim de brincar, mas ele insistiu fazendo cafuné nos meus cabelos. Resmunguei que já não sou a menina moleque que andava na enxurrada, caçava tanajura, soltava pipa e, cara limpa e coração livre, corria pela modorra da tarde que me pertencia. Agora, o corpo pesa, o dia já não me pertence, e o coração já não se abre para a vida com a mansidão dos crédulos.

Como já não posso correr livremente pelas ruas da minha vida, caminho com cuidado pelas alamedas de mim mesma, e entre as quatro paredes do meu coração, que já não pode alçar grandes vôos, faço as coisas acontecerem no espaço modesto das minhas palavras.

Descobri que as enormes ruas do meu passado se estreitaram em becos cheios de histórias. O largo da praça, que era um oceano aos meus olhos infantis anda estreito para tanto carro e tanta gente. Era alí que Nossa Senhora, em lágrimas, se encontrava com Jesus carregando a sua cruz pesada na Semana Santa. E todo ano eu chorava junto e me sentia pregando um preguinho naquela cruz, grande pecadora que eu era. Me sentia culpada até começar a pecar de novo, tantas eram as oportunidades de pecar ao vivo e em cores. Hoje, sou uma aquarela de dores, que os pecados estão encaixotados em compartimentos que ninguém abre. Tenho preguiça de pecar.

Mas o sol continua a fazer cócegas no meu pescoço. Espio por entre as franjas do meu sono seu espetáculo de cores. O vermelho fogo e o amarelo canário me atingem num sopro quente e me contam que o danado não vai desistir, Ele me lambe com o mesmo entusiasmo de várias décadas atrás, quando nossa relação era lasciva e pecaminosa, de roubar frutano pomar alheio e tirar doce do tacho de D. Efigênia. Eu e o sol fomos grandes companheiros. Dividiamos a culpa. E pelo que vejo, ele ainda quer repeteco. Não se esqueceu de mim. Quer que eu encontre o andor e o ardor de antigamente. Mas o adro da igreja já não é o mesmo. Não tem espaço para amores antigos. Minha biblioteca, toda pixada, me olha com cara de poucos amigos. Não dá vontade de entrar. Eu passava horas na sua sombra fresquinha, enquanto o sol ciumento me esperava lá fora, às vezes até dormíamos de conchinha no fundo do terreiro. E quando pela primeira vez toquei acordeon no pátio do colégio, ele estava lá me dando força com seu sorrisão.

Não cheguei a lhe dizer que agora são outros tempos. E que aquele amor ardente se tornou morno. Esse assédio só me irrita. Ele não consegue entender que agora sou uma mulher de sombras, que o campo aberto não é mais minha praia. Sou de cantinhos. Meu mundo agora tem uma ordem desarrumada que só pertence a mim. O cá dentro me atrai muito mais que o lá fora. Fiquei assim. Nunca estaremos na mesma frequência. Eu me recolhi e o sol manteve o seu entusiasmo juvenil. Um incansável renascer de furiosa energia.

Tenho vergonha de dizer que usei muitos estratagemas para fugir dele. Algumas vezes esperei que ele fosse dormir e o traí com a lua, ou com a brisa. Aconteceu. Depois de anos de companheirismo que beirava a completude, bandeei pro lado do lusco fusco. O verão não passa para o sol, mas o outono chegou para mim. Houve um descompasso. O sol da minha infância já não me atrai.

E na minha visita ao passado, o sol da minha infância foi o único que se manteve fiel a mim. Tentou me abraçar de todas as formas, mas eu não sou a mesma. Minhas ruas já não são minhas, as casas só têm as cascas, meu rio é sujo e apertado entre avenidas, minha casa de varandinha e jardim de delicadas rosas virou uma construção vertical e severa, com trancas e câmeras, sem pés descalços. É alí agora que vive a menina moleque, fechada no seu outono, com as folhas caindo e as cores esmaecidas.

Ah! Meu amigo sol. Me desculpe. Seu azar pode ser resumido na frase de Shakespeare, em Romeu e Julieta: “Askfor metomorrowandyoushallfind a grave woman”. “Procure por mim amanhã e encontrarás uma mulher séria”.

 

 

Maria Solange Amado Ladeira         26/04/2016

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