O insulto e a crítica

por Ednilson Toledo

Crônicas Colunas & Opiniões Em 03/10/2019 11:36:11

Há algumas semanas, a jovem sueca, Greta Thunberg, ficou mundialmente famosa por seu ativismo contra o aquecimento global. Diagnosticada com autismo, a jovem de dezesseis anos é uma das pessoas indicadas ao Nobel da Paz. Seu discurso na Conferência da ONU foi carregado de frases fortes e dedos apontados para os líderes mundiais que apenas discursam sobre um necessário crescimento econômico e desprezam as questões socioambientais. O semblante fechado demonstrava claramente o desconforto por toda aquela situação. Tal comportamento está diretamente ligado à sua condição, que, ao ser exposta a uma situação estressante, tende a reagir de forma a se defender. No entanto, nada disso é levado em conta para quem quer apenas insultar e propagar discursos de ódio nas redes sociais. Nesse momento, o bom senso é esquecido e prevalecem o ódio e a intolerância.

Bastou o fim do discurso de Greta na ONU para que ela se tornasse alvo de diversos tipos de ataques. Notícias falsas (“FakeNews”) e comparações com a também jovem ativista Malala foram fartamente compartilhadas. Além das acusações de que a jovem sueca seria arrogante e malcriada, as postagens salientavam uma condição privilegiada de Greta, por ter nascido em um país rico; como se, pessoas que vivem em países ricos não pudessem se posicionar por causas globais, como o ecossistema. A questão é: por que insultar ou comparar a jovem ativista ao invés de debater a sua ideia?

Pode-se criticar o ponto de vista que está sendo exposto, mas atacar a pessoa que o expõe deslegitima todo o processo crítico. Nesse sentido, o que se viu foi uma enxurrada de insultos direcionados à jovem ativista sueca, e não narrativas contrárias ao que foi dito por ela. O que, de certa forma, apenas demonstra que o discurso de Greta é tão verdadeiro que não é facilmente contestado; logo, parte-se para o insulto à emissora da ideia. Em um mundo em que ainda há quem acredite que a terra é plana, não faltará os descrentes no aquecimento global. Isto não é o problema. As ideias e os estudos estão aí para serem contestados e debatidos - evidentemente, com argumentos científicos e não com achismos ou interpretações individuais.

Não se agride o carteiro por trazer uma correspondência indesejada. Pode-se ser favorável ou contrário a uma linha de pensamento ou uma ideologia política. No entanto, tais pontos de vista devem ser defendidos sem que, para isso, seja necessário insultar quem pensa diferente. Esse é um dos pilares da democracia.

Ednilson Toledo

 Sociólogo

ednilsontoledo@gmail.com