O incalculável prejuízo da greve

Se para a maioria dos caminhoneiros a paralisação da categoria trouxe conquistas, para comerciantes sobrou prejuízos e para os clientes finais foi inevitável o aumento nos preços de produtos essenciais

Cidades Em 01/06/2018 23:41:23

por Bruno Martins

Sem combustível nos postos, carros desabastecidos, estoques de lojas, restaurantes, padaria e supermercados cada vez mais vazios, o fim da greve dos caminhoneiros, foi na verdade um alívio para muitos comerciantes de Santa Isabel que viram suas vendas caírem drasticamente. A arrecadação de muitos mercados caiu e em dez dias de paralisação preços de produtos essenciais como alimentos, combustível (gasolina, etanol) e até o gás de cozinha aumentaram entre 16 e 30%. 

Após ficar sete dias fechado, sem combustível para abastecer os carros de Santa Isabel, um posto de gasolina no centro da cidade, registrou um prejuízo de aproximadamente R$18 mil. É o que conta o próprio gerente da loja, Gilmark Macedo: “Conseguimos receber o combustível nesta semana, mas em um dia tudo acabou e ainda é incerto quando conseguiremos receber outra remessa”, disse. 

Sem combustível, o número de pessoas circulando pelas ruas caiu e essa queda de público quem sentiu foram os comerciantes das lojas, bares e restaurantes. Sem clientes, foi preciso reformular as estratégias, para sentir menos as perdas. 

Comerciante há mais de 20 anos em Santa Isabel, Jabá optou por não abrir o seu bar The Roots, situado no centro da cidade, na segunda e terça-feira desta semana: “O movimento na Avenida era muito baixo, então eu decidi não abrir e correr o risco de gastar luz e água sem ter cliente, mas de quarta-feira para cá voltamos a receber nosso público”, diz. O público nas lojas de vestuário da cidade caiu também no período da greve, numa loja de sapatos no centro essa queda foi de 20%, de acordo com o gerente Michael Lopes: “Sem combustível ninguém quis sair de casa”, salienta. 

Nos restaurantes as perdas foram ainda mais significativas, dependentes do fornecimento de legumes e carnes para o abastecimento de seus estoques, e com estes produtos cada vez mais escassos, os donos foram obrigados a rever seus buffets e na falta de ingredientes reformular os cardápios. Nesta semana, Márcio Arruda, proprietário do Restaurante Arrudinha, foi obrigado a abrir mão do churrasco e servir apenas Prato Feito (PF): “Tive uma queda na freguesia de mais de 60%, pois os açougues aqui da cidade estavam todos com estoques vazios. Uma coisa puxa a outra, se o dono do açougue não tem carne para me vender, eu não tenho para oferecer ao meu cliente, todos perdem”, diz. No final da greve Arruda contabilizou um prejuízo de aproximadamente R$8 mil. 

Roberto Kichs, proprietário do restaurante Gauchinho, sofreu uma queda de mais de 50% na sua clientela. O racionamento de alguns legumes o obrigou a reformular o cardápio: “Tive que substituir batata por mandioca e rever alguns outros pratos. Sábado, 26, domingo, 27, terça 22, e quarta-feira, 23/05, foram os dias de pior movimento em meu restaurante, nestes 20 anos que estou na cidade. Meu faturamento caiu mais de 20%”, disse. 

Valor de produtos essenciais aumentou no período da greve 

O presidente da República, Michel Temer anunciou nesta semana a redução de R$0,46 no preço do diesel, a partir de 01/06. Após o fim definitivo da greve na última quarta-feira, a fila nos postos de combustíveis dobrava quarteirões. Com o produto escasso, muitos postos fizeram valer a lei da oferta e procura que rege o mercado, com isso o preço do álcool e da gasolina aumentou na maioria dos postos da região. 

Antes da greve o preço médio do etanol era R$2,49, depois o produto na bomba passou a custar R$2,89, um aumento de 16%. Na gasolina o aumento ainda foi mais significativo de pelo menos 22,5%, o preço que antes era R$4,00 passou a ser de R$4,90 em outros lugares o preço máximo já chega a R$5,00. 

Gás de cozinha aumenta cerca de 30% 

O preço médio do gás de cozinha estava entre R$50,00 a R$55,00 até o início do mês de maio. Embora a Petrobras tenha anunciado em 16/05 aumento no GLP industrial e comercial de 3,5%, na região o valor do gás de cozinha aumentou para R$65, mais de 30%. Este é um valor presente em Arujá, Igaratá e Santa Isabel, mas em Jacareí, por exemplo, o gás de cozinha já está no valor médio de R$80,00 chegando a custar ainda em alguns outros lugares da cidade até R$120,00. 

Durante a greve, produtos alimentícios sofreram aumento considerável, no Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo) o valor de produtos essenciais triplicou e consequentemente aumentou também nos mercados. A batata passou de R$1,61 para R$17,50, assim como a cenoura de R$1,74 que passou a custar R$4,50, além da vagem que passou R$2,30 para R$6,00. Frutas como a uva nacional, por exemplo, triplicaram no Ceagesp passando de R$4,51 para R$12,00. 

Comércio quer se reerguer

De acordo com o presidente da Associação Comercial de Santa Isabel (ACISI), Roberto Drummond, o impacto da paralisação dos caminhoneiros foi de 36% de queda no movimento. “Este número foi resultado principalmente do setor de combustíveis e supermercados”, disse.

Em Arujá a realidade não é muito diferente. De acordo com João Carlos Romão, presidente da Associação Comercial, a cidade sofreu como todas as outras da região. Ele também acredita que a normalização, “para ser mais exato, se dará em uma semana”, afirma.

85% dos lojistas apontam prejuízos com a greve 

Uma pesquisa realizada pela Federação das Câmeras de Dirigentes Lojistas do Estado de São Paulo (FCDLESP) aponta que, para 84,78% dos lojistas do estado, a greve dos caminhoneiros influenciou diretamente no movimento do comércio.

Segundo o presidente da FCDLESP Maurício Stainoff, os lojistas estão tentando negociar os preços com seus fornecedores, de modo que não ocorram aumentos ou que o impacto dos possíveis aumentos não prejudique ainda mais a população.

Ainda segundo a pesquisa, apenas 31,42% afirma ter tido problemas de faltas de funcionários durante este período. Destes, 97,72% irão compensar o dia de trabalho. A pesquisa da FCDLESP ouviu cerca de 200 representantes de CDLs (Câmaras de Dirigentes Lojistas) do estado de São Paulo.