O Desprendido e o Perfeccionista

por Camila Britto

Crônicas Em 06/10/2017 15:57:32

Havia numa pobre aldeia duas irmãs gêmeas idênticas, de mesma bondade e altruísmo. A ambas incomodava o fato de constantemente faltar água naquela região, algo que trazia sofrimento para todos.  Mal se podia cozinhar; as crianças sentiam a boca seca; os animais desfaleciam sedentos. Então, as irmãs planejaram construir um poço em uma aldeia próxima onde a oferta de água não era tão escassa. A primeira das irmãs, muito perfeccionista e inteligente, pensou em tudo: na logística necessária para o transporte da água, na forma que seria realizada a distribuição, e principalmente no fato de que nada poderia dar errado. 

A segunda irmã, igualmente inteligente, porém totalmente desprendida da perfeição, pensou nos mesmos aspectos, salvo que não se incomodaria se algo desse errado. Na verdade, ela já vislumbrava alguns contratempos, mas nada a faria desistir.

Em pouco tempo, as irmãs perceberam que para encontrar água, o poço deveria ser bem mais fundo do que imaginaram; a qualidade da água não seria tão boa; e seu transporte não poderia ocorrer diariamente. Então, a perfeccionista prontamente afirmou: Eu me recuso! Não era isso o que planejamos, não é isso o que desejamos!

A segunda irmã, conhecendo a teimosia da primeira, não insistiu, porém continuou em seu projeto solo. Foi mais difícil do que ela pensava. Foram sete longos meses até que o poço estivesse pronto. O trabalho era complexo: toda semana, um dos moradores a acompanhava em uma carroça para buscar a água que estava há mais de 10 km de distância. Enchiam os galões e realizavam a mesma viagem cinco vezes ao dia para que a quantidade fosse suficiente para todos. As aldeãs se incumbiam de ferver e tratar o líquido, que por vezes estava lamacento e sujo. 

Não era como a irmã desprendida imaginava. 

Mas ainda assim, ela não se sentia triste ou frustrada, pois agora podia ver as mulheres cozinhando, as crianças hidratadas, os animais bem cuidados e todos trabalhando em união. Não era da forma que ela sonhou, mas era a maneira possível de acontecer. Era, sim, o seu melhor. E o seu melhor, fez melhor a vida de muita gente, inclusive a sua. 

A irmã perfeccionista se rendeu à determinação da irmã desprendida e aprendeu uma valiosa lição: o perfeccionista é aquele que deseja chegar ao topo sem nenhum arranhão sequer. Ele sofre por dois, pois não se conforma com seu erro e se revira vendo a falha do outro. Enquanto isso, o desprendido faz como pode e com o que tem. Sofre menos porque não fica vidrado em seus erros e simpatiza com seus arranhões, pois sabe que eles são o resultado da sua vontade de vencer. 

Deixemos de lado nossa irmã perfeccionista e sua necessidade utópica de perfeição. Sejamos felizes em nossas possibilidades reais, vivendo o agora e fazendo o melhor com o que possuímos.