Morte e abandono

Avô do bebê encontrado morto dentro de casa nesta semana, diz que a filha já tentou vender a neta de dois anos para comprar drogas

Cidades Segurança Pública Em 12/05/2017 19:31:40

Reportagem: Bruno Martins

 

“Ela não tinha condições psicológicas de criar o filho, eu mesmo ganhei a guarda provisória da minha neta, após ela tentar vender a filha para comprar drogas”, diz avô.  

 

“Mataram o meu neto”, afirma Ueliton Ribeiro de Jesus, 41, avô de Theillor Henrique Marçal Ribeiro, encontrado morto dentro de casa na manhã de domingo, 07/05, no Bairro Jd. Cruzeiro em Santa Isabel. 

Theillor tinha quatro meses e morreu possivelmente sozinho num quarto vazio, enquanto sua mãe L.A.M.R., 18, passava a madrugada em outro município. “Só o laudo do Instituto Médico Legal (IML) comprovará a verdadeira causa da morte”, diz a polícia. Ninguém foi preso. 

O caso foi registrado na delegacia de Polícia de Santa Isabel como abandono de incapaz e morte suspeita. Segundo boletim de ocorrência, a mãe de Theillor foi para Mogi das Cruzes onde, suspostamente, trabalha em uma casa de prostituição. Ela deixou o filho sob os cuidados de um casal de amigos que morava na mesma casa. O casal relatou que o neném não chorou e todos dormiram à noite toda, até que na manhã de domingo, por volta das 10h30, o casal foi até o berço onde Theillor dormia e encontrou a criança já sem vida. 

A Polícia Militar (PM) foi acionada, por volta das 11h, e preservou o local até a chegada da perícia do IML que recolher o corpo.  A mãe de Theillor chegou em casa por volta das 14h, quando tomou conhecimento da morte do filho. 

O bebê foi encontrado deitado de bruços, diferente da posição que a mãe diz ter deixado. O casal que cuidava do bebê relatou a PM que a criança pode ter se engasgado, mas eles não notaram nada de diferente. 

O adolescente M.M., 17, até a morte do bebê acreditava ser o pai da criança. Ele conta que Theillor foi enterrado com uma mancha rocha no rosto e diversas marcas pelo corpo que comprovam que ele sofria de maus-tratos. Contudo, a polícia explica que a mancha roxa pode ser provocada por um processo chamado “livor mortis”, que ocorrer quando o coração para de bater e o sangue, pela força da gravidade, pode se acumular em determinados ponto do corpo.

Para o avô Ueliton, “nada justifica essa sequela encontrada no rosto do pequeno Theillor. A história está muito mal contada”, afirma.

Relatos de maus-tratos

O avô Ueliton conta que L. constantemente deixava o filho aos cuidados de terceiros, seja para usar drogas ou se prostituir. Há cerca de 15 dias Theillor foi levado por L. e o adolescente que pensava ser o pai da criança a uma consulta médica na Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Lá Theillor foi diagnosticado com dor de garganta e manchas pelo corpo: “Eu me encontrei com ela lá na UPA e a alertei que se não cuidasse dele com atenção, ele corria o risco de morrer, deixei claro que uma vez que ela não tem condições de criar um filho, que o entregue a quem quer cuidar”, relata o Avô. 

Ueliton possui a guarda da primeira filha de L., que está com dois anos de idade. Após constatar sinais de maus-tratos o Conselho Tutelar de Mogi das Cruzes, município onde L. morou em 2016, entregou a pequena S. aos braços do avô.

“Os conselheiros me contaram que resgataram minha neta, no momento em que a minha própria filha tentava vendê-la para comprar drogas. A criança estava completamente desnutrida e cheia de doenças como a sífilis que só sarou, porque minha esposa e eu tratamos devidamente. Acredito que as feridas que saíram no corpo de Theillor eram sinais de sífilis também, que não foram tratadas antes que ele morresse”, afirma. 

Nos quatro meses de vida do neto, Ueliton lamenta que esteve com ele apenas duas vezes e que a filha nunca o deixou pegar no colo. “A convivência com L. nunca foi das melhores. Quando ela começou a se envolver com drogas, aos 13 anos, a nossa vida virou um pesadelo. Ela já apontou faca para a mãe dela, minha ex-mulher, me ameaçou várias vezes, tanto que registrei cerca de seis boletins de ocorrências contra ela na delegacia por ameaças feitas a minha pessoa”, revela. 

Família diz: Conselho Tutelar foi omisso 

A família revela que procurou várias vezes o Conselho Tutelar de Santa Isabel para relatar as condições de maus-tratos que Theillor vivia, porém nenhum dos representantes esteve na casa em que a vítima morava. “Era para o Conselho ter tirado o bebê da mãe assim que ela recebesse a alta na Santa Casa de Santa Isabel após dar à luz, mas ela fugiu e foi tê-lo em Itaquaquecetuba. Mesmo assim acredito que faltou ação do Conselho, pois se houvesse era para ele estar vivo aqui hoje”, defende Ueliton. 

O presidente do Conselho Tutelar de Santa Isabel, Gilberto Cabral explica que: “O Conselho não tem autoridade para retirar o filho de ninguém se não houver determinação judicial para isso. Nós não somos um órgão repressor, estamos aqui para fazer a defesa dos menores de idade com base no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)”, explica. De acordo com o Presidente, Ueliton já esteve cerca de cinco vezes no Conselho pedindo orientações sobre como lidar com os problemas que a filha apresenta. 

Para o advogado Dr. Matheus Valério, o Conselho tem o dever de comunicar as autoridades toda vez que houver uma denúncia grave sobre maus-tratos: “É dever funcional do conselheiro comunicar a Polícia Militar ou Civil toda vez que constatado o abandono ou os maus-tratos a uma criança e/ou adolescente. Se o conselheiro se recusar a tomar qualquer decisão contra um caso como este, ele pode sim responder pessoalmente na justiça por omissão, caso provada”, explica. 

O delegado Dr. Carlos ressalta que a Polícia Civil está investigando o caso, mas só poderá tomar uma decisão definitiva após o resultado do laudo, que deve ficar pronto dentro de 30 a 40 dias: “Já ouvimos a mãe e o casal que cuidava de Theillor, mas temos que ter paciência e aguardar o resultado do laudo. Instauramos o inquérito e vamos apurar a causa da morte e seus devidos responsáveis. Se for considerada a morte em decorrência do abandono, a mãe pode pegar de 4 a 12 anos de prisão”, explica.

Theillor foi velado e enterrado no cemitério Municipal Brotas na segunda-feira, 08. A casa onde ele morava com a mãe ficou abandonada após o tragédia, segundo vizinhos, ninguém mais mora no local. A reportagem tentou falar com L. por telefone, mas nenhuma ligação foi atendida. 

 

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