Mais de 70% das escolas da região não atingiram as metas do IDESP

No índice que avaliou o rendimento das 58 escolas estaduais pertencentes à Regional de Jacareí, Santa Isabel está entre aquelas que atingiram a pior média

Saúde Em 05/05/2018 01:55:50

por Bruno Martins e Érica Alcântara

Das 58 escolas Estaduais, pertencentes à Diretoria Regional de Ensino de Jacareí, avaliadas no Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (IDESP), 42 não alcançaram as metas propostas pela Secretaria Estadual de Educação. Foram avaliados alunos do 5º ao 9º ano do Ensino Fundamental e da 3º série do Ensino Médio. Santa Isabel está entre as cidades que apresentaram o pior desempenho em 2017: de 9 escolas avaliadas, 8 estão abaixo das metas propostas pelo Estado.

A secretaria Estadual de educação explica que o índice leva em consideração o desempenho dos estudantes nas provas de língua portuguesa e matemática aplicadas pelo Saresp, além do fluxo escolar (alunos que estão em séries ou anos incompatíveis com a idade). O objetivo do IDESP é avaliar anualmente o desempenho das escolas, a fim de ajudá-las a melhorar, apontando a evolução alcançada ano a ano. 

Fazem parte da Diretoria Regional de Jacareí as 12 escolas estaduais de Arujá, as seis de Guararema, uma em Igaratá, uma em Santa Branca, nove em Santa Isabel, além da própria Jacareí, com 29 escolas avaliadas. Cada unidade de ensino possui uma meta individual a ser alcançada, e esta meta é estipulada com base na nota que a escola tirou no ano anterior, ou seja, as metas propostas em 2017 foram feitas com base nas notas tiradas em 2016.  

Em Arujá as metas das escolas ficaram de 2,50 a 3,84 para o ensino fundamental (5º ao 9º ano), e de 1,41 a 3,16 para o ensino médio (3º ano). Nove escolas ficaram abaixo da meta proposta pelo Estado, sendo que a pior média ficou com a E.E. Amadeu Rodrigues Norte, Bairro Vila Pedroso, que ficou 17,4% abaixo da meta para a turma do 5º ao 9º ano e 24,4% abaixo da meta proposta aos alunos do 3º ano do ensino médio. 

As escolas de Arujá que obtiveram melhor desempenho no IDESP foram a E.E Profº Mariano Barbosa de Souza: o 9º ano ficou 8,6% acima da meta, e o 3º ano, 34,7%. A E.E. Profº Esli Garcia Diniz não alcançou a meta para o ensino médio, mas ficou 35,2% acima da meta do ensino fundamental.   

Igaratá possui uma escola estadual, a Coronel Benedito Ramos Arantes, e obteve um desempenho satisfatório na avaliação, ficando 20,46% acima da meta proposta ao ensino fundamental e 5,1% abaixo da meta proposta ao ensino médio.

Santa Isabel é a pior da região

Comparativamente, mesmo que cinco das seis escolas de Guararema avaliadas no IDESP tenham fechado o ano no vermelho, elas ainda ficaram mais próximas de alcançar as metas do que Santa Isabel. 90% do ensino fundamental isabelense ficou abaixo da meta proposta, e o mesmo ocorre com 75% do ensino médio. De nove escolas avaliadas, oito ficaram abaixo das metas.

Santa Isabel também tinha como desafio superar as metas mais altas da região que ficaram entre 3,06 a 5,09. No ensino médio as metas variaram entre 2,29 e 3,11. Somente a E.E. Profª Laurentina Lorena Correa da Silva, Bairro Jd. Cruzeiro, se destacou nos dois ciclos, ficando 15% acima da meta proposta para o 9º ano, e 9,1% acima para o 3º ano. A E.E. Hyeróclio Eloy Pessoa Barros, Bairro Vila Guilherme, também obteve bom desempenho na nota do 3º ano e ficou 1,2% acima da meta proposta. 

As que tiveram pior desempenho foram a E.E. Profº Gabriela Freire Lobo, situada no centro da cidade, com 30,7% abaixo da meta do ensino fundamental e 15,3% abaixo da meta do ensino médio; seguindo os respectivos ciclos, a E.E. Profª Brasilisia Machado Lobo, Bairro Jd. Eldorado, ficou 28,9% abaixo da meta para o 9º ano e 31,3% abaixo da meta no 3º ano.

Na tabela ao lado é possível conferir o desempenho de todas as escolas de Arujá, Igaratá e Santa Isabel no IDESP. 

A reportagem questionou a diretoria Regional de Jacareí sobre o desempenho das escolas no IDESP, mas até a publicação desta matéria, ninguém se manifestou.

 

 ________________________

  

Uma consequência social negativa dos maus resultados no IDESP

O IDESP, assim como o Saresp e o IDEB, são ferramentas de avaliação escolar para orientar a elaboração de políticas públicas para a educação, indicando ao Estado onde e como aplicar seus recursos. Nesse sentido, o mau desempenho em um desses indicadores não significa uma consequência negativa imediata, de natureza institucional, para as unidades escolares, a não ser a que porventura resulte de mudanças macro administrativas. Contudo, ele tem, sim, um impacto relevante sobre a comunidade escolar, na medida em que influencia a percepção que as pessoas têm da qualidade de ensino desta ou daquela escola em particular, uma espécie de lente através da qual o senso comum compreende a educação.

Um dos pontos em que é possível notar como essa diferença de percepção é relevante, diz respeito ao número de matrículas: as unidades com os melhores índices de desempenho são aquelas que recebem maior número de solicitação de matrículas, enquanto àquelas com as piores avaliações cabe absorver o excedente das “boas escolas”. Esse fenômeno, longe de sugerir algo positivo, pode, na verdade, aprofundar distorções que, por inúmeros motivos, já são sistêmicas dentro da rede de ensino, pois uma escola com bom índice de qualidade tende a receber matrículas de alunos que já tem ou estão comprometidos com um bom rendimento acadêmico, tem bom suporte familiar e muitas vezes já desfrutam de condições socioeconômicas mais favoráveis a seu desenvolvimento; por outro lado, estudantes com desempenho avaliado como “fraco” – e as razões para isso são complexas – tendem a ser “empurrados” para escolas que, da mesma forma, exibem resultados mais “fracos”; uma das consequências, portanto, consiste no surgimento de “núcleos de excelência”, fazendo com que as “boas escolas” continuem “boas”, e as “escolas ruins” continuem “ruins”, ou tenham muita dificuldade de elevar seus índices de desempenho. Como a própria Nota Técnica da Secretaria de Educação do Estado adverte, “o uso do indicador de resultado para a comparação de escolas tem uma limitação séria. Tanto os alunos das escolas são diferentes, como as condições estruturais de cada escola são diferentes. Assim, as condições sociais dos alunos, principalmente o capital sociocultural de sua família, tornam o desempenho cognitivo mais ou menos difícil”. E, nesse sentido, devemos lembrar que o IDESP não é capaz de refletir todos os fatores que interferem no rendimento escolar dos estudantes, que para além da própria infraestrutura escolar e das variantes socioeconômicas, é influenciada também pela qualidade de formação dos professores, pelo grau de valorização da carreira docente e pela capacidade das unidades escolares para formar uma comunidade acadêmica comprometida com o aprendizado dos alunos.

Dessa forma, parece um equívoco julgar quão boa é ou não é uma escola, tomando como base apenas o IDESP, ou outros índices analíticos que consideram apenas os resultados obtidos em contextos restritos e muito específicos. Mais do que a preocupação em matricular os filhos em uma “boa escola”, a preocupação dos pais de alunos deveria estar focada em dar condições para que eles, os alunos, tirem o máximo proveito da educação que lhes é ofertada; mais do que a preocupação com “boas escolas”, é preciso formar bons estudantes que, no limite, serão os protagonistas do avanço de suas escolas. Mas, para isso, é necessário o compromisso e o envolvimento das famílias e do poder público, no processo de formação dos estudantes; sem esse esforço conjunto, não há nenhuma medida milagrosa que possa reverter o quadro negativo de rendimento escolar.

Bruno Drumond

Professor de Filosofia na ETEC Cônego José Bento

Doutorando em Filosofia da Educação pela USP