Lições de Montaria

por Érica Alcântara

Crônicas Colunas & Opiniões Em 30/08/2019 21:07:53

Acabo de voltar de Minas. Minha terra sempre será Ouro Preto, mesmo que escolha viver em outro lugar. Por quê? Por que foi lá que me constituí, onde os princípios e valores de minha raiz se formaram não a ponto de cristalizar, mas de formar paredes sólidas para manter-me de pé aonde quer que eu vá.

A minha terra vive de histórias. Prédios coloniais erguidos no século XVIII onde a Inconfidência Mineira encontrou berço e terror. A beleza fria de sua pedras e Minas, a gente que nasce em lugar bonito se acostuma tanto com a beleza que perde a dimensão dela. Deixamos de ver o belo quando ele é parte da rotina, mas isso não significa a extinção dele. 

Acredito que, às vezes, é preciso voltar ao começo para entender como chegamos até aqui. 

Quando conheci Santa Isabel pouco depois da virada do século 21 confesso que não me apaixonei por essa terra à primeira vista. Desembarquei do ônibus no Centro da cidade, num ponto improvisado na Rua Monte Serrat e me deparei com casas também coloniais, mas que, ao longo dos anos, são gradativamente encobertas por camadas cintilantes de placas comerciais feitas em PVC ou qualquer coisa neste sentido.

E que história há neste lugar? Qual história sobreviverá as mudanças que derrubam tijolos de barro e o substituem por concreto? Que identidade oferece ao estrangeiro, esse mesmo - que como eu - bebe de sua água e não quer mais sair?

A primeira vez que vi uma cavalgada foi quando vi Santa Isabel em sua grandeza. A comitiva se reunia no início da Av. Sebastião Claudiano antes de entrar na República. Bois enormes a conduzir carroças que gemem quase em sinfonia, cavalos de pelo brilhante e cores diversas montados por cavaleiros de chapéus finamente engomados e amazonas com jeans justos e fivelas douradas e prateadas, algumas a ninar a imagem da Virgem Maria. 

As cordas que guiam os animais são as mesmas que guiam a vida. 

E desde então quando alguém tenta miseravelmente chamar esta terra de pobre ou humilde, digo que não conhece uma cavalgada. E que pena nunca a ter visto! Pois a tradição, a vida cercada pela montaria, remonta a formação deste município, fruto de homens que conduziam suas vidas entre a Capital Paulista rumo ao ouro escondido em Minas. 

O laço, o chapéu e a montaria. Tudo isso dá orgulho no povo que vive aqui. Nunca vi um animal surrado ou ferido, quem ama montaria, ama boi, cavalo e acredito que até galinha! A existência no campo resgata o sentido e a história, por ser simples talvez... 

Complexo são os homens a conduzir o comboio da vida, o mundo rural remonta a majestosa beleza da simplicidade da vida.