Lição Inútil

por Roberto Drumond

Crônicas Em 25/01/2019 18:49:55

Meu pai pescava muito no Rio Paraopeba. Saía com seus amigos na tarde de sexta-feira e retornava no domingo, feliz da vida, com a caixa de gelo cheia de peixes. Era um rio generoso que percorria 546 quilômetros ao longo de Minas Gerais até desaguar no Rio São Francisco que então, era chamado de rio da integração nacional.

Tempos depois construíram a barragem de Três Marias, instando no sertão de Minas um mar enorme de água doce, repleto de peixes. Meu pai também pescou lá, certo dia trouxe um surubim de 80 quilos, um monstro que fez a alegria de toda a família.

Ontem rompeu uma barragem de rejeitos de mineração. Ironicamente a barragem tem o nome de um dos alimentos mais consumidos no país: barragem da mina do Feijão. É a repetição de um triste espetáculo que vai, aos poucos destruindo os cenários onde meu pai, seus amigos e milhares de pessoas pescavam e viviam. O Rio Doce, afetado pela barragem que rompeu em Mariana também ofereceu peixes à nossa família e lazer a meu pai. Eu nasci às suas margens, em Coronel Fabriciano quando meu pai exercia a medicina lá.

Assistimos ontem o mesmo lamentável acidente, dessa vez com a barragem do Feijão. As notícias que chegam informam o desaparecimento de 200 pessoas, muito mais do que os 19 mortos de Mariana, de quem ninguém mais ouve falar. O acidente envolve a mesma empresa: a Vale do Rio Doce, uma das maiores mineradoras do mundo. E por que repete?

Repete porque as lições não foram aprendidas. Em Minas Gerais, segundo notícias recentes existem 400 barragens semelhantes à de Mariana e de Brumadinho e, pelo menos 5 delas se encontram em risco de rompimento. E essas duas não são as únicas que romperam. Lembro-me do rompimento de uma barragem em Ubá. Era de rejeitos de uma fábrica de celulose. Afetou o rio Paraíba do Sul.

Não se aprendeu lição por causa da impunidade. Sequer as pessoas que perderam todo o patrimônio foram ressarcidas e o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, continua ocupado por montanhas da terra trazida pelas águas.  O drama humano, a fauna e a flora afetados ao longo dos rios contaminados pelos rejeitos, as cidades prejudicadas em seu abastecimento, a vida alterada pela lama tem um preço. Um preço alto, há quem diga que o retorno da febre amarela se deve ao desastre de Mariana. Vamos repetir a experiência?

O presidente Bolsonaro, o Ministro Sérgio Moro, com seus discursos de fim da impunidade devem liderar o movimento que puna verdadeiramente os responsáveis por esse crime. Que as pessoas, as cidades, os estados prejudicados possam ter uma resposta rápida compensando a vida e a natureza pelo descaso demonstrado pela ganância empresarial da Vale.