Incerteza sobre a volta às aulas afeta vendas das papelarias

Indefinição no início do ano e reutilização diminuíram procura por material escolar. Para reduzir perdas, lojistas apostaram até na confecção de máscaras, como Sara Said, da Golden Center (acima)

Educação Economia & Negócios Em 16/02/2021 11:18:24

Até 2020, antes da chegada da pandemia e das medidas restritivas, a volta às aulas era considerada o 'Natal' do setor de papelarias. Mas as incertezas quanto ao retorno das escolas em 2021 em cenário recessivo indicam os reflexos negativos sobre as vendas do comércio especializado em material escolar.  

Uma projeção do Sindicato do Comércio Varejista de Materiais de Escritório e Papelaria de São Paulo (Simpa-SP) aponta queda de mais de 40% nas vendas do setor em 2020.

Na própria 25 de Março, espécie de 'Meca' dos cadernos, mochilas, estojos e todo tipo de material escolar a preços acessíveis, a baixa procura por esses itens somada ao Carnaval adiado fez os lojistas sentirem queda de 50% nas vendas nesse início de ano, estima a Univinco (União dos Lojistas da 25 de Março e adjacências). 

Listas enxutas, reaproveitamento maciço ou troca de materiais não-utilizados no ano em que escolas públicas e particulares tentaram se adequar à nova realidade das aulas on-line, dão a tônica deste novo ano letivo. 

Com a queda na renda pelo fim do auxílio emergencial e o desemprego, os pais têm enxugado a lista ao máximo, deixando de lado itens de peso como mochilas, estojos e cadernos personalizados. Pouco ou nada utilizados nas aulas à distância e com carga horária reduzida, eles não devem ser trocados ou repostos.   

Até a negociação direta entre escolas e editoras de livros didáticos para reduzir custos afetou as receitas das papelarias. Muitas faziam parcerias e, com as listas em mãos, disponibilizavam cotação de materiais e livros, entregues encapados e etiquetados para facilitar a vida dos pais. Mas esse ano isso não foi possível. 

Antônio Martins Nogueira, presidente do Simpa-SP, afirma que a preocupação é grande, já que o movimento das pequenas e médias papelarias e revendedoras de livros didáticos continua muito fraco. 

"As compras se resumem a um lápis, uma borracha, um apontador. Ou, no máximo, uma caixa nova de lápis de cor ou de canetinha", afirma. "Já sentimos um encolhimento grande das papelarias em 2020, e o mercado continua difícil, as pessoas não compram pois continuam em dúvida sobre como vai ser esse ano."

Com a transformação drástica causada pela crise da covid, de acordo com Nogueira, pelo menos 30% das 2,8 mil papelarias da base do sindicato, algo em torno de 840 lojas, fecharam as portas ao longo de 2020. 

Além de problemas como paralisação do programa "kit material escolar" da Prefeitura de São Paulo, que desde janeiro deveria distribuir créditos aos alunos da rede municipal no valor de R$ 33,40 a R$ 178 para compra em papelarias credenciadas, segundo Nogueira, o setor enfrenta dificuldade de acesso ao crédito.  

"Muitas buscaram crédito com os bancos para enfrentar os compromissos e não conseguiram, pois precisavam comprovar 12 meses de faturamento, entre outras burocracias desnecessárias", destaca. "Até agora as papelarias têm sobrevivido sem apoio do governo, mas não há nenhum plano e estamos temerosos." 

O jeito, segundo Nogueira, que por 67 anos esteve à frente da papelaria São Miguel e se aposentou em 2019, é orientar os lojistas para que se diversifiquem, se atualizem, procurem vender pela internet e façam parcerias com livrarias, lojas de material de informática e de brinquedos didáticos. "São coisas que, juntas, podem somar", dá a dica. 

SE VIRANDO NOS 30

Algumas papelarias de bairro estão sentindo de perto os efeitos da volta às aulas da pandemia, como a Golden Center, empresa de gestão familiar ativa há 31 anos na Vila Alpina (Zona Leste da capital paulista). 

Além do amplo portfólio de material de papelaria e escritório, outro forte da loja são artigos e fantasias de Carnaval, Festas Juninas e Haloween, entre outros, confeccionadas por uma outra equipe da empresa. 

Vinda de um crescimento de 20%, em média, por ano, essa é a primeira vez que a Golden Center atravessa esse período com queda de 30% nas vendas, segundo a proprietária Sara Said. 

Ela conta que, nesses períodos, a clientela primeiro costuma fazer levantamento de preços no Centro, ou seja, na 25 de Março, para depois ir para as lojas de bairro. Mas esse ano o cenário é outro.

Além da reciclagem de materiais do ano passado, parte das escolas não pediu material, e outra parte reduziu a lista a um quarto do que era. Sem contar a migração de alunos das escolas particulares para as públicas. 

"Muitos que foram para as escolas do estado ou da prefeitura pegam o material que ganham mas não compram nada a mais", conta. "As feiras de trocas de livros também diminuíram essas vendas, e a adoção de apostilas de sistemas de grupos educacionais também estão fazendo editoras e livrarias perderem clientes."

O crescimento dos grandes atacados de material escolar e escritório também acabaram afetando as papelarias de bairro, segundo Sara - movimento que acabou se intensificando com a crise da covid.

"Há dez anos havia 13 papelarias aqui na rua Costa Barros. Agora, somos nós e mais uma pequena", afirma. 

Em resumo, segundo a comerciante, o que salvou a Golden Center em 2020 foi a diversificação dos negócios e a venda de serviços. Com a quarentena, foi mantida a oficina de costura com apenas seis dos 20 funcionários.

Passaram a prestar serviços de corte e costura para pequenas marcas de moda com loja no Instagram e para outras confecções. Também confeccionaram bandeiras de partidos políticos e, é claro, máscaras.

Mas não é a mesma coisa de quando a Golden Center não só comercializava material escolar e de escritório para todas as escolas da região, mas também preparava figurinos para formaturas e apresentações de balé e teatro, entre outros eventos escolares. "Estamos vendendo 10% do que vendíamos antes", lamenta.  

 

Por Karina Lignelli