Ilusão

Érica Alcântara

Crônicas Em 25/01/2020 00:34:44

Mal e bem, luz e sombra, feio e bonito, certo e errado...

Pensamos na realidade do mundo por meio da dualidade, encaixotando pessoas, atos e palavras em segmentos traduzíveis para nossa razão, mesmo que ela seja tão constantemente fragmentada, muitas vezes precária e oscilante.

O nosso julgamento é mais rápido que a nossa capacidade de pensar, por isso tantas vezes erramos e magoamos tantos apenas por falar, assim mesmo, de impulso ou supetão. Às vezes essa dificuldade de somar para não dividir emperra a construção de algo novo, feito em conjunto. 

E, talvez, tão iludidos por essa matemática hipotética da realidade, separamos tudo pela dualidade e acreditamos na separação que a todos individualiza. Como se cada pessoa fosse um elemento separado do todo.

Mas a verdade é que não há separação absoluta, estamos todos interligados. Um vírus na China, até ser descoberto, pode já ter contaminado o mundo. Eu que moro há poucos quilômetros de um aeroporto penso, que o homem hoje voa, mais ainda não entendeu as próprias conexões. Somos o que somos, às vezes o bem, às vezes o mal... e nossas decisões afetam o nosso redor, algumas dão voltas no planeta.

O lixo jogado nas ruas também voa de volta para as casas pelas picadas incômodas de um mosquito. E você não verá insetos engravatados com apostilas nas patas registrando o nome somente dos malfeitores que sujam as ruas taxando-os assim:  “esse eu pico, esse eu não pico”.

Até os vírus trabalham em equipe, se alastram dominando territórios, cujas linhas de separação só existem na cabeça limitada dos homens. 

Vejo esses tempos com a dualidade bruta das polarizações mais assustadoras e minha escrita é, também, um pedido de reflexão, pois que a direita e a esquerda são igualmente uma invenção. Fazem parte da mesma sociedade, corpo truculento ainda e evolução.

E se você não precisasse julgar? Se não precisasse escolher um lado. Se apenas recolhesse o lixo, limpasse seus terrenos e se alimentasse melhor. E se você pudesse ajudar alguém, independente dos caminhos que esse alguém seguiu. 

E se pudéssemos apenas buscar o equilíbrio entre mal e bem, luz e sombra, feio e bonito, certo e errado... quão perto chegaríamos da paz que tão estranhamente afastamos para longe de nós?