Furto deixa famílias em pânico e natureza fica comprometida

Fato ocorreu na noite de terça-feira, 13, em Santa Isabel o odor do combustível pôde ser sentido a quilômetros de distância, famílias abandonaram suas casas com medo de explosão

Cidades Em 16/02/2018 18:33:05

por Bruno Martins e Érica Alcântara

“O cheiro de combustível invadiu nossas casas e não sabíamos de onde vinha, as pessoas e até os animais começaram a desmaiar e passar mal, só deu tempo mesmo de recolher as crianças e uma fralda para o nosso bebê”. O depoimento de Carmelita Paula resume o desespero que atingiu na noite de terça-feira, 13/02, as famílias do Bairro Itapeti, em Santa Isabel, após um vazamento nos dutos de combustível da Petrobrás. 

O vazamento ocorreu em decorrência da tentativa de furto de combustível nos dutos que passam próximo ao Bairro do Itapeti, Estrada Arthur Cytrynowicz. Ao notarem que não conseguiriam concluir a ação, os bandidos fugiram deixando para traz ferramentas e pedaços de tubos, conexões que, possivelmente, seriam utilizadas no furto. O caso foi registrado na delegacia de polícia da cidade.

Rapidamente a Transpetro, responsável pelo monitoramento dos dutos, mobilizou sua equipe de profissionais para trabalhar na contenção do vazamento e reparo imediato da tubulação. Agentes da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) acompanham os trabalhos direto do local do vazamento e monitoram a área, que ainda na manhã de quarta-feira, 14/02, foi declarada com alto índice de explosividade. Como medida de segurança cerca de 15 famílias que moram próximas a área atingida foram acolhidas pela Transpetro num hotel do município. 

Vazamento pode comprometer vida do Rio Parateí 

Técnicos que trabalharam na contenção do vazamento declararam que não foi possível impedir que o combustível atingisse o Rio Parateí. Apenas um laudo da CETESB irá determinar o quanto oficialmente o rio e a Área de proteção Permanente (APP), por onde o líquido passou, ficaram comprometidas.  

O secretário de Meio Ambiente de Igaratá e membro do Comitê de Bacias Hidrográficas do Rio Paraíba do Sul, Juarez Vasconcelos, explica que o Parateí pode ter sua vida aquática seriamente comprometida dependendo do volume de combustível que desaguou no rio: “É preciso um estudo detalhado que identifique o quanto de combustível se misturou as águas, se houve um grande volume de derramamento podemos em alguns dias ter mortandade de peixes e demais espécies que vivam no rio ou as margens dele. Esse pode ser um efeito como o que tivemos em Minas Gerais na cidade de Mariana, ocorrido em novembro de 2015, porém em menor escala”, alertou.   

O Parateí nasce na Serra do Itaberaba, passa por Arujá, Santa Isabel e deságua em Jacareí. Juarez explica que ele é uma afluente do Rio Paraíba do Sul, este último é fonte de abastecimento humano para algumas áreas de São José dos Campos. 

Algumas famílias do Bairro Itapeti dependem do rio, para Juarez é preciso que haja um acompanhamento dessas pessoas por parte da Transpetro e da Defesa Civil de Santa Isabel, a fim de impedir que elas tenham contato direto com a água, caso tenha ocorrido a contaminação.

Dario Neto, Diretor de Defesa Civil de Santa Isabel, informa que as famílias voltaram para suas casas na manhã de ontem: “O município solicitou a Transpetro que faça uma análise criteriosa da água do rio e também dos poços de cada uma das residências para garantir que não há riscos para a saúde dessas famílias”, diz. 

Prefeitura vai multar Transpetro 

O secretário de Meio Ambiente de Santa Isabel, Reinaldo Nunes, garante que vai notificar e multar a Transpetro por conta da área de APP que foi desmatada pela Companhia para ter acesso aos dutos: “Existe um caminho exclusivo para que a Transpetro tenha acesso a tubulação, isso dispensa o desmatamento de áreas legalmente protegidas. Faremos uma notificação e multa para que ela recomponha essa área de alguma forma. Foi mais um dano ambiental desnecessário para Santa Isabel”, defende Reinaldo. 

Transpetro já recuperou o Duto

Em nota a Transpetro informa que o volume total do vazamento de combustível ainda está sendo estimado pela Empresa e as autoridades ambientais. “Mas o reparo no duto já foi concluído e oleoduto opera normalmente. Equipes de contingência com cerca de 70 profissionais continuam trabalhando no recolhimento do produto vazado e na limpeza do local”, diz. 

A Transpetro destaca que colabora com as investigações das autoridades e sua maior preocupação é a segurança das famílias, “pois intervenções criminosas nos dutos podem trazer riscos para a comunidade”, alerta.

Sobre o desmatamento constatado pela equipe de Meio Ambiente da Prefeitura de Santa Isabel, a Transpetro garante que utilizou um acesso já existente e com a autorização do proprietário da área. 

Por meio do telefone 168, a população pode entrar em contato com a companhia caso identifique qualquer movimentação suspeita na faixa de dutos ou em terrenos próximos ou queiram enviar dúvidas, reclamações ou sugestões. A ligação é grátis e o telefone funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.

Cetesb acompanha a ocorrência

A CETESB informa que ainda acompanha a ocorrência e avalia as medidas adotadas pela empresa e os impactos causados, uma vez que, mesmo tendo sido eliminado o vazamento, ainda estão sendo adotadas as medidas emergenciais para contenção e recolhimento do produto vazado. Desta forma, após a realização destes trabalhos, serão avaliadas as ações administrativas a serem adotadas. 

Alimento da terra e a contaminação da horta

Alice Silva Oliveira, 64 anos, mora na região há 25 anos. Ela se recusou a ser hospedada no hotel de referência indicado pela Transpetro. “Tentaram invadir a casa da minha filha quando fomos para a rua em busca de ar fresco, arrebentaram a porta e quando chegamos estavam dentro da casa. Por sorte, nada levaram, só deixaram o medo”, contou.

Apaixonada pela vida na roça, Alice semeia no quintal, às margens do Rio Parateí, parte da alimentação de sua família. Alface, alfava, cheiro verde, taioba, abacaxi, figo, lichia, morango e muito mais, a chuva tem regado a plantação, mas usualmente é do rio que ela retira a água da horta. “Ninguém mandou a gente parar de usar a água do rio, com ela continuamos a cuidar dos patos, gatos, galinhas e cachorros”, explica.

Alice diz que não se recorda de qualquer acidente com o Duto nesta proporção. “Dentro de casa o nariz e os olhos ardiam, todas as roupas ficaram com o cheiro de combustível e uma estranha sensação de náusea”, descreve.

Nos três primeiros meses do ano passado a Transpetro registrou 78 casos de intervenções clandestinas em seus dutos que percorrem várias regiões do país. Só em São Paulo no mesmo período foram registradas 27 tentativas de furtos das quais 14 resultaram em algum tipo de vazamento.