Fogo no Sofá

por Roberto Drumond

Crônicas Em 19/04/2019 22:28:13

Conta a lenda de rua que ao chegar em casa o marido encontrou a esposa trocando carícias com o seu melhor amigo no sofá. Indignado, pegou o sofá e jogou no fogo.

Se para o ministro Alexandre de Moraes a sua decisão na segunda-feira passada não foi ato de censura, para os demais membros do Supremo Tribunal Federal (STF) equivaleu-se ao fogo do sofá. Afinal quais as razões que levaram o pai de Marcelo Odebrecht a tratar o então procurador da República, Dias Toffoli, de “amigo do meu pai”?

O fato principal da denúncia e da verdadeira  identidade do  “amigo do meu pai” parece que fica em segundo plano, a ser investigado ainda pela “Lava Jato” a quem Marcelo entregou o documento. Que motivos teria o então presidente da Advocacia Geral da União, Dias Toffoli, para se entender com um dos maiores empreiteiros do país no ano de 2007, em pleno governo de Lula da Silva?

O email entregue agora à Polícia Federal não há menção de pagamento ou de eventuais irregularidades, mas merece a investigação como todos os relacionamentos entre os suspeitos e condenados por irregularidades com as autoridades que vão julgá-los em algum momento. E aí está um caso.

Em defesa da decisão de Alexandre Moraes de censurar o primeiro a surgir foi o próprio Dias Toffoli que alegou que a publicação dessa informação constitui uma “agressão à Suprema Corte”, como se fosse ele o único a carregar essa representação. Sua pretensão não encontrou eco nem mesmo em seus colegas, todos criticaram a sua decisão e, sem dúvida nenhuma, o pressionaram para revogar, como de fato o fez na última quinta-feira. 

Relator do inquérito para apurar as fake news e ofensas contra o Supremo, ao lavrar a sua decisão de mandar tirar do ar as duas publicações o Ministro Alexandre de Moraes deu mais visibilidade à reportagem e trouxe ao debate o tema da censura, unindo, pela primeira vez na história desse país, a direita e a esquerda, provocando duras críticas de juristas, entidades de jornalismo e dos próprios ministros do STF. Ele jogou na panela das fakes news um documento que já estava nas mãos das autoridades e cujo teor terá de ser analisado profundamente antes de se tornar prova de qualquer coisa.

Ao invés de prejulgar as informações como falsas, o Ministro deveria se preocupar com a natureza da notícia veiculada e a forma pela qual ela vazou para a imprensa. Esses dois pontos cruciais demonstram, de um lado a força da imprensa que torna público um fato incômodo e, do outro, a pouca habilidade de avaliar as conseqüências de seu ato. Inventar a censura é queimar o sofá!