Exemplo de vida!

por Roberto Drumond

Crônicas Em 24/07/2020 22:26:20

Quando me pediram para preparar um texto fúnebre para publicação no caso da eventual morte do nosso amigo Dr. Orlando, não fiz! Sinceramente não acreditava que ele seria vencido por esse vírus que está minando a vida no planeta.

Orlando, para mim, era invencível pelo conhecimento que tinha dos riscos que corria, exposto quase que o dia inteiro na UPA de Santa Isabel, cuidando dos pacientes com a doença. Cada paciente que ele perdia, chorava e lamentava, era como um membro da família que partia!

 Mas ele se levantava, levava sua atenção para outro leito, para outro irmão e com o coração aberto aprendia com cada morte e com cada vitória comemorada cheia de justo orgulho e compartilhava sua extensa experiência com os demais médicos que, a seu lado, viviam (e ainda vivem) empenhados no combate.

Pertencia ao grupo de risco de diversas formas: diabético, hipertenso e tinha o excesso da gordura das pessoas afetivas, mas não creio que chegava a obesidade. Recusou a se afastar da missão que recebeu ao se tornar médico. Tão logo a covid-19 deu seus primeiros sinais em Santa Isabel passou a se dedicar quase que integralmente ao atendimento das vítimas da doença.

Amanhã, dia 26, Orlando faria 48 anos. 

Era o primeiro filho de uma família modesta, nasceu em Campinas e sempre estudou em escolas públicas. Com poucos recursos familiares começou a trabalhar cedo para pagar os cursos que fazia para enfrentar os cinco vestibulares que tentou nas faculdades públicas. Trabalhou como auxiliar de enfermagem, depois como técnico também de enfermagem até que conseguiu uma bolsa parcial na Universidade de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Ali, para custear sua vida acadêmica, no início foi cuidador de idosos e, mais tarde escrevia apostilas e lecionava aulas de bioquímica em cursinhos de pré-vestibular.

Formado em 2002, fez residência em hospitais públicos onde conheceu a mulher com quem se casou em 2008. Como ele, a enfermeira Arlete, sua esposa, também trabalhava no Hospital Municipal do Tatuapé. Da convivência nasceram duas meninas: Marina (hoje com 13 anos) e Juliana (10 anos).

No mesmo ano do casamento mudou-se para Santa Isabel e como era jovem, os médicos mais veteranos o mantinham à distância até que, avaliando a sua dedicação e os seus conhecimentos passaram a indicá-lo como cirurgião geral, competência que exerceu com maestria durante a vida. Foi diretor clínico da Santa Casa de 2012 até fevereiro desse ano quando se afastou por questões pessoais.

No decorrer do exercício profissional incluiu em seu currículo diversas especialidades, destacando o uso de tecnologias para análise e diagnósticos através de ultrassom. Com outros médicos liderou uma clínica onde atendia inúmeros pacientes que o procuravam frequentemente em busca de favores que ele, generosamente, atendia.

Na frente de trabalho contra o Coronavírus foi personagem de entrevistas a diversos órgãos de imprensa e um parceiro de plantão do Jornal OUVIDOR, sempre pronto para esclarecer dúvidas e dar sugestões. Recomendava cuidados para evitar o contágio da doença e se afastou até mesmo do convívio com as filhas no zelo de preservar-lhes a saúde. Sensível, em uma das entrevistas ao vivo, chorou de saudades das duas meninas que, diariamente, levava à escola e acompanhava no aprendizado da música.

Sua despedida, na terça-feira passada, reuniu centenas de veículos em um cortejo que percorreu parte de Santa Isabel na intenção clara de mostrar a gravidade da doença que, no município já ceifou a vida de cinco profissionais de saúde.

Dr. Orlando foi o último deles. Foi um homem extremamente humano, um Pai extremamente paternal, um médico de indiscutível competência que salvou inúmeras vidas, antes e depois da pandemia e foi, sobretudo um Amigo de todas as horas, disposto a rir e a chorar junto daqueles com quem dividia os seus piores e melhores momentos.

Uma perda grande para todos nós!

Descanse em Paz, Orlando! Obrigado por ter existido!