Educação em risco

por Roberto Drumond

Crônicas Em 01/11/2018 22:29:11

Lamentável a manifestação da deputada estadual eleita em Santa Catarina pedindo que estudantes denunciem professores que façam queixas político-partidárias em decorrência da vitória de Bolsonaro para a presidência da República.

A recomendação remete aos piores regimes autoritários do mundo e sinceramente espero que seja apenas uma parte da ressaca política em que transformou o segundo turno em uma embriaguês ideológica.

Mais lamentável ainda foi a manifestação do presidente eleito a respeito da recomendação da deputada Ana Caroline Campagnolo (PSL) que é, importante compreender, também professora e historiadora. Ela defende a escola sem partido, um segmento de educadores que pretende eliminar do currículo escolar o debate sobre questões políticas, ideológicas, religiosas e morais. Em síntese, é uma proposta que quer retirar da sala de aula a filosofia, a sociologia e outras matérias que despertam no estudante o senso crítico e a capacidade de desenvolver alternativas a partir do conhecimento humano. Substituir essas matérias por OSPB (Organização Social e Política Brasileira) e EMC (Educação Moral e Cívica), não é o ideal. Creio mesmo que tanto essas, quanto as outras das ciências humanas devem fazer parte do currículo escolar, cada uma no momento correto, sem destruir o que o ser humano tem de mais precioso, a liberdade de escolher a partir do conhecimento. 

Querer imputar ao estudante o papel de absorvente dos conhecimentos e opiniões de seus professores é negar a inteligência e o livre arbítrio. É preciso que o estudante saiba discernir o que é bom ou não e; ao professor, cabe saber o que tanto a Constituição Federal como a Convenção Americana de Direitos Humanos preconizam: os deveres dos mestres e direito dos estudantes.

Ao filmar a manifestação dos professores atribui-se à escola o que deveria ser por princípio função dos pais. E Bolsonaro, que ainda não apresentou quem cuidará de sua política para a educação, poderá encontrar aí a sua pedra no sapato. As escolas nos últimos anos, em que pese as exceções, produziram mentes alienadas, muito mais educadas pelos meios digitais do que pelas cartilhas. O crescente número de usuários de drogas e de jovens com desvio de comportamento apenas refletem a dissolução da célula social, fenômeno que o Presidente eleito quer atribuir ao ensino.