Editorial: Caldeirão Cultural

Por Roberto Drumond

Colunas & Opiniões Em 20/11/2015 11:15:52

Por Roberto Drumond

 

Essa semana, em conversa com o padre Gabriel Bina, prefeito de Santa Isabel, perguntei-lhe as razões pelas quais a prefeitura havia organizado uma semana em comemoração à consciência negra, com grandes eventos, bonitos; ao contrário do dia da pátria, quando as comemorações se limitaram ao hasteamento de bandeiras.

Minha questão era se a pátria seria algo menor do que a cultura afro. Ele poderia ter dito que o dia da pátria caiu na segunda-feira o que dificultaria qualquer atividade, mas ele não o fez. Limitou-se a dizer que a comemoração da semana da consciência negra é uma celebração de 51% da população brasileira que merece ser referenciada porque construiu muito do que o Brasil é, contribuiu muito para a construção de nossa realidade.

Contudo eu discordo dele. Eu acho que se não há pátria não há nem mesmo o dia da consciência negra. Consciência negra é a constatação de que nós temos uma origem, mas antes de tudo, essa origem está ligada ao que somos: e somos brasileiros. A cultura brasileira está esquecida, eu sei que meus dois filhos vão criticar a minha opinião. Mas é minha opinião. Sei que ambos defendem a causa e valoram essa atividade como sendo a recuperação de uma cultura que é parte da cultura brasileira, mas não é a totalidade dela.

Pátria é o complexo conceito que envolve o local onde se nasce, a língua que se fala, a história, o folclore, entram em jogo até mesmo noções ideológicas e políticas, mas sempre associado a um estado/nação. É antes de tudo um patrimônio cultural e histórico partilhado por pessoas que podem até mesmo estar separadas do ponto de vista geográfico. Assim a celebração dos antecedentes afro podem significar algo que está além do território brasileiro. É como se admitir uma nação dentro de outra.

O justo seria termos o dia da cultura quando cada etnia, se assim o quisesse, comemoraria a sua origem, os seus costumes, a sua língua. Em minha opinião o costume que criamos de estabelecer a cultura negra como sendo a única a ser homenageada no caldeirão étnico que o Brasil é, é uma injustiça; é a criação de um privilégio que resulta mesmo numa forma de “racismo”, embora eu não goste dessa palavra.

Acho que o que tem de ser comemorado é a cultura brasileira que foi influenciada pela cultura afro. Esta está entranhada na cultura brasileira assim como a cultura alemã tem identidade própria dentro do Brasil, a eslava, a portuguesa, a italiana. São Paulo tem a maior população japonesa fora do Japão e isso não pode deixar de ser valorizado. São culturas que precisam e devem ser valorizadas tanto quanto a cultura negra.

Deveríamos nos preocupar em valorizar todas as culturas que resultaram na nossa. E principalmente valorizar a pátria que temos, na qual vivemos e, com todos os percalços que possam existir, é a única que temos.

 

Faço voto que essa minha opinião resulte na reflexão de todos nós para que, quem sabe um dia, saibamos valorizar mais esse doce, essa composição étnica e cultural chamada Brasil.