Duas filas

por Érica Alcântara

Crônicas Em 29/11/2019 22:23:11

Gugu Liberato morreu no dia 22/11. Sua mente se apagou e possivelmente seu espírito imediatamente seguiu o destino das almas. Atendendo seu pedido a família doou órgãos e salvou vidas que, talvez, nunca tenham noção de onde veio a salvação. 

Na quinta-feira, 28/11, o corpo chegou ao Brasil. Milhares de fãs enfrentaram uma fila de horas e horas a fio para entrar na Assembleia Legislativa de São Paulo e, ao longe, por detrás da faixa de proteção, ver um caixão finamente recoberto de tecido azul. 

Parte do corpo estava lá, mas Gugu não. Este partiu deixando exemplo de vida e toneladas de saudade. Todos sabiam disso. E apesar desta consciência intrínseca de que a morte já não permitia mais ao apresentador sentir a homenagem e a presença dos milhares que se amontoavam na fila, ninguém que se dispôs a entrar na espera esmoreceu ao desejo da despedida.

Ao artista da comunicação, fica minha admiração. Exemplo de quem começou lá de baixo e trilhou com talento o próprio sucesso.

Agora vou fazer uma comparação a título de reflexão. Espero contar com a sua compreensão e adianto que não estou defendendo lado político, pois não sou filiada a nenhuma ideologia e, confesso, não confio cegamente em nenhum partido ou político. 

Recebi dezenas de reclamações de pessoas que vieram a Santa Isabel para tentar uma vaga de emprego no Feirão. As mais graves são aquelas que atrelam a espera na fila com o sentimento de humilhação. 

Por que esperar numa fila para ver um corpo vazio é símbolo de homenagem e a espera na fila para procurar um emprego é humilhação?

Você que madrugou no Bairro 13 de Maio, que imprimiu suas qualidades e qualificações num papel, que manifestou seu desejo sincero de conseguir uma oportunidade, você merece mais que esse sentimento pequeno.

É fácil identificar problemas, anunciar para o mundo que não vale a pena lutar por si mesmo. Você que esperou e ainda espera, você não desistiu - se entregando a ruminar a miséria do mundo sentado no conforto da negação com o celular na mão.  

Milhões jogam na Mega Sena, mas poucos têm a chance de ganhar e, certamente, só será sorteado aquele que saiu de casa, enfrentou a fila da lotérica e apostou. Pode não ter sido desta vez, pode ser que a sua oportunidade ainda esteja por vir, mas só de levantar da cama e procurar algo novo é algo da qual espero que você se sinta digno pelo esforço.

Não desista.