Dia com gosto de cinzas

por Érica Alcântara

Crônicas Em 03/09/2018 09:55:08

Hoje o dia foi de cinzas. A morte do Museu Nacional no Rio de Janeiro, em 02/09/ 2018, representa tanta coisa. 
E as alegações das autoridades, cada qual em busca da própria isenção, dizem tantas outras coisas sobre nossa sociedade.

Até o abraço simbólico dos estudantes, vazio. Abraço depois de morto faz mesmo sentido? Enquanto não arde, não vira pó, não valem os esforços?

Por que não estamos todos em luto? Por que cada cidade deste país não decreta luto?

O problema não é do Rio, o que padeceu pertencia a nossa humanidade. A humanidade em nós virou cinzas?

Penso no desespero do bombeiro que chegou naquele patrimônio com o desejo sincero de salvar, qualquer objeto, pesquisa, fóssil... a Luzia (ossada que trouxe luz a parte de nossa identidade). Mas ele chega no local, tem técnica suficiente para salvar qualquer coisa, mas não há água. Não havia água.

Muitos choraram. Quem dera que as lágrimas daqueles que amaram nossa história fossem capazes de apagar as chamas do descaso. 
Não foi. O Museu está morto. E num país de injustiças, possivelmente, não haverá culpados para tantas cinzas.
Érica Alcântara
03/09/2018