Defendeu o próprio assassino antes de morrer

“Eu não quero morrer”, disse Karina pouco antes de falecer

Segurança Pública Em 12/01/2018 20:28:11

por Érica Alcântara

 

O bebê estava pronto, os pés gordinhos voltados para dentro, as mãos fofas já tinham covinhas acima dos dedos e o rosto retratava as feições de sua mãe morta sobre a mesa cirúrgica e de seu pai, o próprio assassino confesso, preso na mesma noite.

Quando a equipe médica deu início à cesária de emergência, imediatamente soube que não poderia salvar o bebê, a cabeça da criança foi atingida pela bala de espingarda e no útero de Karina Rodrigues Santos, 28 anos, havia pólvora entre os mais diversos órgãos.

Três dias antes do ano novo, mais especificamente dia 28 de dezembro de 2017 às 2h36 da manhã, a Polícia Militar de Santa Isabel foi acionada para atender a ocorrência de um acidente de carro na Estrada do Monte Negro, próximo à entrada do Bairro Jd. das Acácias. Quando as viaturas chegaram, havia um veículo batido num barranco ao lado de um poste, ao seu lado, estirada sobre o asfalto cinza chumbo havia uma mulher grávida com um ferimento que expunha suas vísceras que insistiam em sair de seu corpo.

“Eu não quero morrer”, disse Karina, enquanto os policiais chamavam pelo atendimento de emergência.

Joas João da Silva, 34 anos, estava ao seu lado, ajoelhado murmurando palavras. Ele disse que sofreu uma tentativa de assalto e a companheira foi baleada por meliantes. Karina confirmou a versão do pai de seu filho, foi uma de suas últimas palavras antes de perder a consciência e ser levada para o centro cirúrgico da Santa Casa de Misericórdia. 

A polícia acompanhou o homem até a delegacia, depois até a casa para buscar documentos. Havia sangue, sinais de luta e uma desordem que, após versões confusas e incongruentes, levaram Joas a confessar um conflito seguido de um tiro, supostamente acidental, que resultaram na morte de sua companheira e o filho ainda de sete meses de gestação.

Na cena do crime, encostada no guarda-roupa, havia uma mala vermelha com peças de Karina. Seu algoz diz que a mala representa seu pedido de separação, afirma que suplicou para a grávida ir embora e ela supostamente foi. Passou o Natal com a família, mas voltou para o Ano Novo com o companheiro. 

Na versão de Joas, naquela trágica noite Karina resolveu voltar para casa, alcoolizado e sob efeito da cocaína, os dois brigaram até que uma arma entre eles soou o tiro da morte.  Ele diz que ficou desesperado, mas não há relatos de que imediatamente tenha chamado pelo socorro. Enquanto a mulher sangrava na sala da casa sede de uma chácara que não lhe pertencia, Joas quebrou o cabo da espingarda e tentou escondê-la enterrando-a sob um vaso nos jardins da propriedade.

Em 2015, Karina já havia denunciado as agressões de Joas. Registrou um Boletim de Ocorrência, mas desistiu da queixa logo em seguida. Ainda assim ele foi condenado, mas aparentemente graças a defesa da vítima, o agressor recebeu uma pena branda de três meses em regime aberto.

Feminicídio

Preso em flagrante, Joas é acusado de feminicídio, com agravante pela condição de gestante da vítima e por motivo fútil. De acordo com o Delegado de Polícia, Dr. Carlos Alberto Oliveira, graças ao avanço da legislação o feminicídio pode, neste caso, aumentar a pena em um terço ou até metade pelo assassinato. “A pena máxima de 30 anos, se assim o Juiz de direito decidir, poderá chegar até 45 de encarceramento”, explica.

Retrato da Violência Doméstica em Santa Isabel

Nesta semana, o Delegado concedeu uma entrevista ao vivo pela rede social do Jornal Ouvidor. Nela, Dr. Carlos esclarece como funciona a legislação e a importância de se conhecer os próprios direitos. “A Lei Maria da Penha é pequena e de fácil leitura”, destaca, acrescentando: “Muito se fala hoje sobre empoderamento da mulher, isso é importante e passa também pelo conhecimento de cada uma sobre os seus direitos”.

Em 2016 foram registrados 69 boletins de ocorrência referentes a violência doméstica, que resultaram em 55 inquéritos policiais. Já em 2017 este número aumentou 14%, foram 79 boletins e 60 inquéritos. “Não significa que aumentou a violência, mas cresceu o conhecimento da mulher em denunciar qualquer agressão”, destacou Dr. Carlos.

O Delegado aproveitou a ocasião para contar que já está em tratativas com a Prefeita Fábia Porto para instalar na Delegacia uma Sala Rosa, que será dedicada integralmente para o acolhimento da mulher, possivelmente com o plantão de uma psicóloga e uma assistente social que poderá encaminhar as vítimas para atendimento especializado. 

“A Delegacia já tem uma equipe preparada para atender as vítimas, também podemos encaminhar os homens para projetos de recuperação que vão ajudá-los a entender e superar os impulsos agressivos. Precisando de ajuda e informação procurem a Delegacia”, finaliza.