De Olhos Abertos

por Camila Britto

Crônicas Colunas & Opiniões Em 14/12/2018 19:10:30

Escrevo essas palavras com pesar, olhando inúmeras vezes para o nada, sentindo o peito apertado e o coração encolhido. Enquanto faço isso, penso que nesse mesmo momento uma ocorrência de abuso sexual infanto-juvenil é registrada. Fico ainda mais desolada em pensar que situações dessa gravidade são subnotificadas, e que a maioria delas permanece na penumbra de uma infância que poderia e deveria ter sido saudável, feliz e sem intercorrências graves, mas não foi. Dos estupros ocorridos no Brasil, 70% são de crianças e adolescentes, e, na maioria das vezes, o inimigo está perto demais, no seio familiar, dividindo vários momentos a sós com a vítima, o que permite que o terror do abuso ocorra mais de uma vez, gerando um ciclo de medo, vergonha e culpa. 

O fato de existirem pessoas que abusam sexualmente de crianças e adolescentes, se aproveitando de sua ingenuidade e destruindo parte de sua autoestima e saúde mental, é uma verdade dura demais para ser facilmente aceita. Pensar em uma infância inocente sendo assaltada pelo que há de pior em nossa humanidade traz um nó na garganta impossível de digerir. Mas ainda assim, por mais difícil que seja o assunto, nada deve justificar a cegueira de alguns que não veem ou se recusam a ver que a responsabilidade por tal ato nunca é da vítima. 

Há quem acredite que a educação sexual, uma das ferramentas para prevenir abusos, deve vir única e exclusivamente de casa, dos pais e/ou responsáveis pela criança; mas como aplicaremos essa ideia se é justamente nas famílias que reside a maior prevalência de abusos? 

Como é possível pensar que uma vítima pode ter provocado ou gostado de ser violada em seus direitos mais básicos? Como uma mãe pode ser conivente com o sofrimento de seu filho? Como uma mulher com representatividade pública ousa oferecer uma bolsa em dinheiro para outras mulheres, incentivando-as a dar continuidade em uma gestação que só foi concebida porque havia uma garota desprotegida, que sentiu dor, medo, asco, culpa, e que tenta todos os dias esquecer tal situação?

Enquanto mantivermos uma atitude passiva diante de assuntos assim, ignorando deliberadamente o que podem ser indícios de um crime grave e cruel, e aceitarmos declarações absurdas que tratam a pedofilia como orientação sexual, teremos cada vez mais adultos doentes, traumatizados, que desistem da vida, ou que externam as agressividades que sofreram em outras pessoas. Em minha visão que pode ser muito limitada para alguns, o espaço de verdadeira compreensão e cuidado deve ser para com a vítima. 

Ter consciência dessa mazela de nossa sociedade é ver o mundo com clareza demais, perdendo a vantagem da cegueira seletiva que assola a maioria. Mas nesses dias tão sombrios não temos outra opção. Saramago disse certa vez: “A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”. E eu mantenho minha convicção que podemos e devemos abrir os olhos para reconhecer os abusos que acontecem ao nosso redor, pois só assim poderemos fazer algo a respeito. Essa esperança ainda está aqui.