Crise hídrica pode secar economia

Há mais de um mês não chove em São Paulo e os principais reservatórios que abastecem cidades do estado, estão em níveis mais baixos que o período que antecedeu a última crise hídrica

Economia & Negócios Cidades Saúde Empregos Política Segurança Pública Turismo & Natureza Em 20/07/2018 20:38:11

Por Bruno Martins

Até ontem, 20/07, a cidade de São Paulo entrava no 81º dia praticamente sem chuva. Desde o final de maio o nível dos reservatórios do estado tem caído drasticamente, o Cantareira opera com atuais 41% do seu volume útil, enquanto o Jaguari, principal fonte de abastecimento de Santa Isabel, caiu em um mês de 63%, para 40% do seu volume útil. “Se a falta de chuva persistir, em menos de dois meses enfrentaremos uma crise pior que a de 2014”, alerta o engenheiro agrônomo, Juarez Vasconcelos, representante da região no Comitê de Bacias Hidrográficas.

De acordo com Juarez, a situação só tende a piorar em todo o Estado se a chuva não vier nos próximos dias: “Se o nível do Jaguari continuar caindo como caiu de junho para julho, em menos de 60 dias estaremos em níveis alarmantes, que irá prejudicar tanto o abastecimento humano, quanto a diluição de esgoto e consequentemente a vida aquática dos rios”, explica.

Desde março deste ano a Represa de Atibainha, em Nazaré Paulista, principal fonte de abastecimento do reservatório Cantareira, tem recebido as águas do reservatório Jaguari através das obras de interligação. Mesmo com 40% do seu volume útil, o Jaguari tem enviado, todos os dias, cerca de 8 milhões de litros de água por segundo (m³/s) para Atibainha. 

A promessa da obra de interligação, orçada em R$555 milhões, é garantir não só o abastecimento de 21,2 milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), mas também o de Santa Isabel e as demais cidades que dependem direta e indiretamente da Represa do Jaguari, pois a mesma água que é levada para o Atibainha deveria, em tese, voltar para o Jaguari para manter o nível dos reservatórios. 

Porém, o retorno da água para o Jaguari ainda não está em pleno funcionamento: “É impossível garantir a devolução, pois isso só acontecerá quando o Atibainha atingir o seu limite máximo e isso não é possível neste momento, pois em ambos os reservatórios está saindo mais água que entrando”, diz Juarez, acrescentando: “Os dados de monitoramento da Agência Nacional de Águas (ANA), mostram que atualmente no Jaguari tem entrado cerca de 9m³/s e saído 34m³/s”. 

A cota normal de armazenamento de água do Jaguari é de 623 metros em relação ao nível mar, porém com a estiagem o nível da represa é de atuais 612. “A Sabesp poderá retirar água do Jaguari até a cota 603 e nenhuma gota a mais. Mas se a represa chegar a cota 603, saindo ou não água para o Atibainha, já estaremos em uma situação alarmante”, diz  

Estado pode ter desperdiçado meio milhão de reais

Juarez alerta ainda para uma decisão que a Sabesp precisa tomar com urgência: “É previsto que em setembro e outubro tenhamos chuvas, mas se elas só vierem lá na frente, infelizmente, não será o suficiente. A Sabesp precisa resolver imediatamente o seu maior problema que são os vazamentos em tubulações da RMSP, eles ainda existem e não acabaram mesmo depois da forte crise de 2014/2015. Se reduzirmos para 20% os atuais 40% de vazamento, conseguiríamos salvar 8m³/s, a mesma quantidade que é levada diariamente do Jaguari. Nem precisaria de interligação”, explica. 

De janeiro a julho deste ano a vazão média do Cantareira caiu de 57,37 para 8,61m³/s, numa análise aos números Juarez acredita que a Sabesp já tenha iniciado desde abril racionamento na RMSP, porém esse controle de distribuição de água não está sendo divulgado à população.    

Mais do que o abastecimento humano, se a estiagem persistir no estado, a seca atingirá um dos principais fatores importantes de Santa Isabel e Igaratá que é a economia gerada pelos comércios e propriedades no entorno da represa: “É inevitável, mas tão logo teremos comércio fechando e propriedades sendo vendidas, a água que está indo embora levará aos poucos, parte da economia gerada pelo Jaguari e para que isso não aconteça as prefeituras precisam agir”, salienta Juarez. 

A prefeita Fábia Porto, e técnicos da prefeitura de Santa Isabel estiveram nesta semana na represa do Jaguari e ficaram espantados com o nível atual do reservatório. Fábia disse que irá notificar o governo Federal afim de que a ANA crie restrições para que a Sabesp retire uma quantidade menor de água da represa para não prejudicar o abastecimento de Santa Isabel. 

De acordo com o Climatempo, há possibilidade que haja mudança na temperatura nas próximas semanas com chance de chuva: “Mas não há nada muito exato ainda”, informa órgão. 

Nota da Sabesp

A Sabesp informa que o abastecimento em Igaratá e Santa Isabel ocorre normalmente. No caso de Igaratá, o município é atendido pelo ribeirão das Palmeiras, com vazão suficiente para suprir a demanda. Já Santa Isabel, a companhia explica que a cidade é abastecida pelo rio Araraquara e pela represa Jaguari, num sistema integrado. “Nos dois casos a operação está normal. E o Sistema Cantareira não tem nenhuma influência no abastecimento das duas cidades”, garante. 

A Sabesp pede que a população mantenha os hábitos de consumo racional de água, evitando o desperdício, especialmente neste período de estiagem.