Crianças que tomam vitaminas podem estar consumindo mais nutrientes do que o recomendado

Ao contrário da crença popular, quando se trata de vitaminas e minerais, menos é mais

Saúde Em 17/09/2015 11:17:14

Fonte: Divulgação

 

 

Crianças pequenas que tomam vitaminas podem estar consumindo níveis muito maiores do que o recomendado de nutrientes, sugere um estudo publicado no JAMA Pediatrics.

Para a pesquisa, os cientistas avaliaram os rótulos de cerca de 200 suplementos alimentares comercializados para crianças em duas faixas etárias: menores de 12 meses e entre 1-4 anos de idade. Os pesquisadores buscaram determinar a quantidade de vitaminas que as crianças consumiam e se o produto era usado como o indicado. Especificamente, eles registraram os níveis de consumo das vitaminas A, C, D, E, K e B12, juntamente com tiamina, riboflavina, niacina, ácido fólico, biotina e colina.

A maioria dos produtos continha níveis de vitaminas muito maiores do que o recomendado para crianças em um único dia. Por exemplo, os suplementos alimentares para crianças com idades entre 1-4 anos continham, em média, cerca de 300% dos níveis diários recomendados de vitamina A, riboflavina e tiamina, 500% dos níveis recomendados de vitamina C e mais do que 900% dos níveis recomendados de biotina.

A vitamina D foi a única substância que esteve presente nos níveis adequados ou abaixo dos níveis recomendados para ambos os grupos etários.

“Segundo os autores do estudo, é muito cedo para saber se esses achados são preocupantes. Isso porque poucos estudos exploraram os efeitos de níveis maiores do que o recomendado das vitaminas em lactentes e em crianças jovens. Assim, em muitos casos, a quantidade máxima de uma vitamina que é segura para a ingestão de uma criança não é conhecida, dizem os pesquisadores”, afirma o pediatra e homeopata Moises Chencinski (CRM-SP 36.349).

Por esta razão, nos EUA, o Instituto de Medicina (IOM) recomenda que as crianças não consumam certas vitaminas em excesso, incluindo vitaminas K e B12, tiamina, riboflavina, ácido fólico, ácido pantotênico e biotina. Os bebês não devem consumir em excesso a maioria das vitaminas. O IOM é uma organização americana sem fins lucrativos que aconselha a nação sobre saúde.

Segundo o IOM, há também uma preocupação de que os corpos das crianças possam não ter a capacidade de lidar com quantidades excessivas de determinadas vitaminas.

As descobertas do estudo sugerem que "a maioria dos suplementos de vitaminas pediátricos não se baseiam nas recomendações do IOM e, portanto, representam um excesso de suplementação", defendem os autores do estudo.

 

Suplementação em crianças?

“A Academia Americana de Pediatria (AAP) defende que os pais devem conversar com seus pediatras sobre se a criança precisa tomar suplementos. Crianças que seguem uma dieta equilibrada recebem níveis adequados da maioria das vitaminas e por isso não precisam de suplementos. Doses muito elevadas de algumas vitaminas, como a vitamina A, podem até mesmo representar riscos, porque elas podem se acumular no corpo”, destaca o médico, que é membro do Departamento de Pediatria Ambulatorial e Cuidados Primários da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

Chencinski, no entanto, observa que algumas crianças podem precisar de suplementação, se, por exemplo, “elas têm hábitos alimentares seletivos, não recebendo, assim, os níveis adequados de vitaminas através dos alimentos. Além disso, a AAP recomenda a suplementação de vitamina D para lactentes, crianças e adolescentes. O Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, em seu Documento Científico, publicado em outubro de 2014, recomenda o consumo de 400 Unidades Internacionais (UI) de vitamina D por dia, entre 7 dias e um ano de idade e de 600 UI entre 12 e 24 meses”.

 

Sobre a suplementação vitamínica em crianças, confira:

Suplementação de ferro, rotina do Ministério da Saúde

 

Quem realmente precisa de suplementação?

Um  relatório publicado pelo Environmental Working Group (EWG) mostra que as crianças são superexpostas às vitaminas e aos minerais graças aos alimentos processados enriquecidos, como cereais e barrinhas de cereais, bem como aos próprios suplementos vitamínicos.

Os responsáveis? As recomendações desatualizadas dos valores diários (valores diários recomendados remontam a 1968) preconizados pelo Food and Drug Administration, FDA, para os nutrientes, que são calculados para estimar as necessidades de um adulto, mas são usados ​​em produtos infantis, de acordo com a organização não governamental, EWG.

O atual sistema de rotulagem nutricional americano precisa de uma reforma, defende o relatório da ONG, que recomenda que o FDA redefina os valores diários recomendados de acordo com os últimos estudos científicos, alterando os níveis dos valores diários das crianças de 1-3 anos de idade e de 4-8 anos de idade, além de regular a atuação das empresas que usam os níveis de fortificação para fins de marketing.

“Mesmo sendo essenciais para a manutenção da saúde, muitas vitaminas podem ser tóxicas para o organismo. Estudos têm mostrado que o excesso de vitamina A pode levar a danos no fígado e perda de cabelo. O excesso de zinco pode enfraquecer o sistema imune e muita niacina pode causar erupções cutâneas, náuseas e vômitos”, conta o pediatra.

Ao mesmo tempo, com exceção dos poucos casos em que uma empresa acidentalmente fortifica um produto além dos seus níveis desejados, não há, na verdade, quase nenhuma evidência de danos que tenham sido diretamente causados pelos alimentos enriquecidos. "É difícil ou impossível relacionar a superexposição aos nutrientes a casos específicos de danos à saúde das crianças, mas vários estudos apontam que a exposição cumulativa aos alimentos fortificados e suplementados poderia colocar as crianças em risco de potenciais efeitos adversos", aponta o relatório da ONG americana.

A EWG estima que milhões de crianças estejam em risco de exposição excessiva às vitaminas A e B3 (niacina) e ao zinco mineral. E para as crianças que tomam suplementos, os riscos são ainda maiores. De acordo com os cálculos da EWG, mais de 10 milhões de crianças americanas são superexpostas à vitamina A, até 17,2 milhões são superexpostas ao zinco e cerca de 4,7 milhões estão superexpostas à niacina.

“O relatório da ONG americana demonstra muito claramente que não é raro que as crianças tomem vitaminas acima dos limites superiores de ingestão recomendáveis”, diz Moises Chencinski.

Há poucas evidências de deficiências de vitaminas clinicamente significativas entre as pessoas nos EUA, exceto nas pessoas que estão doentes ou têm dietas realmente pobres. Não há muitas evidências que apoiem a ideia que a fortificação de alimentos torne as pessoas mais saudáveis.

 

Comer comida de verdade

Para o médico, os pais devem ter cuidado ao alimentar seus filhos com alimentos que tenham mais do que 20-25% dos valores diários de vitamina A, zinco ou niacina. Eles também devem ter tempo para educar-se sobre os diferentes tipos de vitamina A. “Por exemplo, ninguém corre perigo de uma overdose de vitamina A pela ingestão de alimentos como cenouras ou abóboras. Mas a pré-vitamina A, que está presente na carne, no peixe e nos laticínios, pode aparecer no rótulo dos alimentos fortificados como palmitato de retinol, acetato de retinol, vitamina A, neste formato, estas substâncias implicam num risco de superexposição”, avisa.

“Para evitar a suplementação, crianças devem prioritariamente comer alimentos saudáveis. Alimentos altamente processados ​​não são recomendados em qualquer circunstância. Nós sabemos que a maioria das vitaminas fortificantes são adicionadas aos alimentos processados, sabidamente alimentos ricos em açúcar, sal e gordura”, afirma o pediatra.