COVID: A experiência dos sobreviventes

Escaparam com vida e contam o que é vencer o coronavírus

Saúde Em 16/10/2020 20:43:30

Eliete Eduardo da Silva, 46, conhece os dois lados dessa história. Ela é enfermeira na Santa Casa, mas nunca atuou no atendimento aos pacientes com covid-19. Dos 30 dias que ficou internada na UPA, local onde foram atendidos os pacientes mais graves com a doença, ela passou 12 entubada.

Seu trabalho no hospital sempre foi na clínica cirúrgica, mas depois que deixou a UTI onde se curou da Covid, passou a responder pela maternidade e pediatria. Ela conta que logo que apareceram os primeiros sintomas reconheceu a doença e se afastou do trabalho, mas o quadro foi se agravando levando-a a buscar o atendimento especializado.

- Fui internada direto na UPA, sendo atendida pelo Dr. Orlando e Dr. Luís. Desde o início, no dia 8 de maio até o dia que tive alta (8/6) fui muito bem atendida. Vivenciei naqueles dias muita angústia e muito medo. O aconchego que recebi das pessoas que nos tratavam foi fundamental para a minha recuperação.

Eliete acredita que o tratamento que recebeu não foi por causa de ser também trabalhadora da saúde. – O que eu via era a atenção e dedicação a todos os pacientes. Lá dentro a gente fica muito carente, o Dr. Luis e a Luana, fisioterapeuta foram muito importantes na minha internação. Cada vez que eles chegavam eu renovava a minha esperança, criava mais confiança, mesmo vendo que as camas próximas de mim ficavam vazias. Nem sempre eu sabia se os pacientes tinham alta ou se tinham morrido.

Quando se pede para Eliete definir o que fortalece o paciente ela usa uma única palavra: empatia. – É ter a capacidade de se colocar no lugar do outro. É o paciente se ver no lugar de quem o atende e o atendente se colocar no lugar do paciente. Ela observa que muita gente reclama que na saúde falta isso falta aquilo, mas as pessoas não vivem o que se vive lá dentro, tanto profissionalmente quanto como pacientes. “Só quando convivemos com o outro lado da nossa rotina, a gente entende o quão importante o que a gente tem! Todas as pessoas, o próprio governo, sempre dão o seu melhor, mas a falta reconhecimento é o que mais adoece quem está na frente do trabalho.

Vicente de Paula Silva, 60, sempre foi um atleta. Desde os 15 anos, quando ganhou sua primeira bicicleta nunca mais se separou dela e participou de tantos campeonatos que se esqueceu de contar quantos ganhou: - Mas sempre ganhei, ou prêmios, amigos e conhecimento, diz ele com modéstia sentado na pequena oficina que o mantem na rua Padre Léo.

Vicente passou 41 dias internado na UPA, em 9 deles ficou entubado, respirando com ajuda de aparelho. – E continuo com o oxigênio em minha casa. Tenho de recorrer a ele quando me sinto sem ar, mas estou em recuperação e acredito que até o próximo ano estarei de novo, andando de bicicleta. Ele conta que há alguns dias saiu de casa para ir a uma loja próxima. Foi de bike. – Na ida, tudo bem, mas a volta até mesmo empurrando eu senti falta de ar.

Os olhos de Vicente demonstram grande emoção quando conta a sua experiência dentro da UPA: - Eu pedalava 42 quilomentros por dia. De repente tive de parar. Primeiro porque tive um enfarte, depois por causa da covid e, quando estava para receber alta: mais um enfarte!

-No hospital eu via as camas com pacientes, quando acordava, via camas vazias, não sabia porque. Era terrível! Quando o efeito do medicamento estava passando, eu via uma réstia de luz me chamando. Era como se estivesse caminhando para um alívio. Eu pegava em oração.

- Foi a fé e as pessoas que me salvaram, constata ele dizendo que o pessoal da limpeza, pessoal da cozinha, médicos, enfermeiros e auxiliares me fizeram sentir uma pessoa especial, eram como filhos cuidando do um pai. Eu me sentia realmente amado, por isso tinha de viver!

A esposa de Vicente também contraiu a Covid-19. Léia dos Santos Silva ficou internada na Santa Casa, mas o seu caso foi mais leve. Religiosa, ela crê que houve um milagre na vida dos dois: - Para o Vicente, o esporte ajudou porque o fortaleceu e ele venceu essa prova! Para mim foi a oração e a dedicação das pessoas. – Foi outra família que tivemos, conclui o atleta.