Cativeiro

por Érica Alcântara

Crônicas Em 06/09/2019 19:50:27

Se você me perguntasse o que penso de meus sobrinhos, penso: São boas crianças. O mais velho tem 16, só um ano a menos que o jovem negro amordaçado e torturado dentro de um supermercado na Capital Paulista. Talvez por isso a notícia tenha me chocado tanto.

Desde a morte do pai, aos 12 anos,o menino que hoje tem 17 vive perambulando na existência humana, se alimentando de entorpecentes e de doces que furta no mercado. 

Essa semana, a grande mídia repercutiu as ações tomadas pela Justiça contra seus algozes. Descreveram o modo como taparam a boca do rapaz, despiram seu corpo em uma nudez tão encardida quanto a covardia que seguiria, torceram a fiação elétrica transformando-a em chicote e bateram diversas vezes. O urrar da dor após o som da chibata, estranhamente fazia emergir na voz do carrasco um riso às vezes contido, sádico.

E o vídeo... O que passou pela cabeça dos homens que, além do açoite, deram play na filmagem e divulgaram o próprio crime como se a tortura fosse a nova Justiça? E quem seriam eles? Os Zorros dos tempos modernos?

O que faltou na grande mídia foi a tortura cometida pelo Estado. Como uma criança de 12 anos perde o pai e vai parar nas ruas? Não havia mais ninguém para acolher o garoto? Ninguém notou que ele parou de frequentar a escola? Ninguém chamou o Conselho Tutelar? Ou o levou para um abrigo? E todas as vezes que relataram que ele esteve na Fundação Casa... 

São tantas perguntas, mas para mim a maior delas é: Já é tarde demais para salvar o menino? Em breve não será mais constitucionalmente criança, será mais um número na rua, cativeiro da liberdade comprada, fábrica de detentos para tantos abandonados. Pode ser que morra de fome, ou de frio, ou de overdose se a fama repentina lhe der algum retorno financeiro.

Escuto matutinamente a Band, no ar Eduardo Barão repudiou as críticas daqueles que em defesa dos torturadores sustentam de que é assim que se deve tratar um marginal, de que o certo é, na ocorrência de um crime, cometer outro para a correção. Mas a que preço? Sob o risco de perder a réstia de luz e humanidade que ainda vive naquele que bate e naquele que apanha?

Para dar uma lição? Ora, a lição desde a criação da escravidão ao genocídio do holocausto é que ninguém se torna uma pessoa de bem diante da fome. O corpo padece, de nutrientes (que nenhum chocolate dará) e a alma de afetos que a indiferença não dá.

* A tortura é crime hediondo e imprescritível no Brasil, com penas que variam de 2 a 8 anos de prisão.

* Abandono de incapaz (0 a 16 anos) é uma lei prevista no artigo 133 do Código Penal, que consiste em abandonar uma pessoa que está sob seu cuidado, guarda ou vigilância, por qualquer motivo. Pena - reclusão de 1 a 5 anos.