Carta de uma criança aos seus pais

Por Camila Britto

Crônicas Em 20/09/2019 21:08:05

Eu não sei quem é esse tempo de quem vocês tanto falam.

Ainda não entendo qual a diferença de um domingo ou uma segunda-feira. Para mim, todo dia é bom para viver, me divertir, colorir, brincar.

Não faz sentido para mim ter que deixar de olhar o caminho mágico das formiguinhas pelo chão só porque você diz estar sem “tempo”; ou perder o voo da borboleta para correr atrás de obrigações diárias.

Mamãe e papai, tenham paciência comigo.

Eu ainda não aprendi a viver apressadamente em função dessa coisa que chamam de relógio.

Eu ainda não sei ficar quieto quando vejo diante de mim um mundo tão interessante.

Eu ainda não aprendi a passar automaticamente pelas belas coisas da vida. Eu ainda não aprendi.

E não sei se quero aprender.

Mas, já ouvi muita gente falando pra vocês: “calma, é só uma fase”. Então, deve ser assim. Isso deve mesmo passar. Algum dia, eu serei também uma pessoa muito preocupada com o tempo, muito mal-humorado na segunda-feira, muito atarefado com coisas não tão legais como as asas de um inseto. Os caminhos das formigas não me interessarão mais. O voo da borboleta também não.

Eu tenho medo quando penso nisso, mas se tiver que ser assim, tudo bem. Só peço que enquanto esses dias não chegam, tenham paciência comigo.

Eu estou aprendendo a viver do jeito que me pedem. Foi assim com vocês. Assim será comigo.

Mas, se forem pacientes e olharem para o mundo um pouco como eu olho, do jeito que um dia vocês já olharam, as coisas ficarão mais fáceis.

Eu ficarei mais feliz, e vocês também, pois a vida não é uma guerra contra o tempo. Quando chego ao fim do dia, eu não penso no que deixei de fazer, nem no tal tempo que me falta.

Eu penso nos sorrisos que dei enquanto pintávamos um quadro colorido. Quando chegarmos todos no final de nossos dias, não pensaremos nas tarefas por fazer, na falta de tempo, na segunda-feira corrida. Lembraremos de um sorriso especial, de um abraço verdadeiro, de um segundo que passou voando, mas que nos permitiu a coisa mais rara: viver.