Campeão para a Vida

O isabelense Everton Pereira Machado teve paralisia cerebral na infância. Hoje, aos 25 anos, as limitações impostas por seu corpo não foram obstáculos para que conquistasse o título de Campeão Brasileiro de Parajiu-jitsu exatamente uma semana antes do dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiencia, 21 de setembro

Perfil Esportes Em 16/09/2016 18:33:59

Reportagem: Bruno Martins

 

Mesmo com o movimento limitado das pernas Everton Pereira Machado nunca se curvou aos desafios da vida. Diagnosticado na infância como portador de paralisia cerebral, este jovem de 25 anos é exemplo de força e dedicação as suas próprias escolhas. No sábado, 10/09, o menino que tanto luta para enfrentar as adversidades impostas pela vida, subiu ao mais alto degrau do pódio e sagrou-se vitorioso como Campeão Brasileiro de Parajiu-jitsu.    

Everton é o segundo filho dos três que Giani Machado teve, nasceu grande, pesava 4,6kg e 51 centímetros. Os primeiros sinais da paralisia só foram notados depois dos 10 meses de vida, quando as demais crianças já engatinhavam e o filho de Giani ainda lutava com o corpo para se manter sentado. Mais tarde um diagnóstico médico confirmou que a vida de Everton estaria limitada a uma cadeira de rodas.  

A Associação Brasileira de Paralisia Cerebral, explica que a paralisia é causada por lesões neurológicas, que podem ocorrer após o cérebro sofrer agressões ainda em desenvolvimento ou até mesmo durante a infância após infecções ou traumas cranianos que comprometem o sistema nervoso. Isso significa que as crianças crescem, mas o sistema psíquico e as articulações do corpo não desenvolvem completamente, como é o caso de Everton que além das pernas também possui uma dificuldade motora na fala e nos movimentos dos braços.

Giani passou a peregrinar com o filho, de Santa Isabel para São Paulo na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) onde faziam sessões de fisioterapia, ecoterapia, consultas médicas e também as terapias ocupacionais. A mãe confessa que o medo de como a sociedade receberia Everton fez com que ela o protegesse o máximo que pudesse, por muito tempo o portão da sua casa na Rua Fausto Dias Pinheiro, Bairro Vila Osíris, foi o limite máximo para suas aventuras. 

Entrar na escola parecia ser uma missão impossível de ser alcançada, mas o querer partiu dele. Aos oito anos Everton pediu para a mãe que o levasse para a escola. Giani o matriculou no ensino regular, ele cursou do pré até o 2º ano do ensino médio, enfrentou preconceito dos próprios colegas de classe e até de professores que não sabiam lidar com a inclusão de um aluno com deficiência em meio às demais crianças. Faltando apenas um ano para concluir definitivamente os estudos, Everton escolheu parar de estudar. 

Há cerca de um ano e meio, o menino que possui o movimento de apenas 80% dos membros do corpo desafiou as probabilidades físicas e resolveu fazer Jiu-Jitsu. No tatame duas vezes por semana ele se agarra aos mestres que fazem questão de se ajoelharem para ficar na altura dos olhos do guerreiro. 

O professor Daniel de Lucena explica que em decorrência das limitações de Everton a academia adequou o Jiu-Jitsu para o seu grau de dificuldade. A luta que popularmente é em pé e usa as pernas para derrubar o adversário, mas para Everton ela já começa no chão. Os professores movimentam-se com ele, até que o atleta consiga encontrar a melhor posição para imobilizá-los. Precavido, ele sempre presta atenção nas dicas que recebe, para aperfeiçoar ainda mais os seus golpes. 

Foi pelo seu bom desempenho nas aulas que no sábado, 10/09, Everton através da Academia Shaolin de Artes Marciais, foi até Santo André representar Santa Isabel no 3º Campeonato Brasileiro de Parajiu-jitsu. O isabelense se destacou e se tornou o primeiro atleta da região, portador de paralisia cerebral, a ganhar o título na categoria 70kg. Além do ouro, Everton ganhou também a medalha de prata, na categoria absoluto.

A mãe explica que a prática do esporte só tem ajudado o filho no fortalecimento do músculo e principalmente em sua autoestima: “A rede de amigos dele aumentou muito, porque ele tem buscado conhecer novas pessoas, seja na academia, ou até mesmo pela rede social onde ele sozinho faz questão de publicar suas conquistas, é o meio pelo qual ele consegue se sentir mais livre e eu como mãe devo só acompanhá-lo, sem impedi-lo de ser feliz”, diz Giani. 

A família respeitou as vontades de Everton, mesmo cientes de suas limitações, e com seu espírito empreendedor ele tem sido um professor no quesito dedicação e amor à vida.